Embaixada da paz na Rua da Glória

Centro Islâmico do Recife reúne comunidade de cerca de cem pessoas que professam fé pouco compreendida

 

Capital de população majoritariamente cristã, Recife já foi considerado pela comunidade local de muçulmanos um lugar favorável para a prática do Islamismo no Ocidente. A presença de diferentes religiões é apontada como um aspecto positivo da capital pernambucana, embora em todo o Nordeste brasileiro não exista uma mesquita sequer, apenas salas de oração. Desde 1993, um discreto Centro Islâmico funciona na Rua da Glória, no bairro da Boa Vista. Fundado por um muçulmano egípcio, ele é o único na cidade e atrai frequentadores de várias localidades da região metropolitana. Desafiando o estigma de servir a uma religião equivocadamente associada ao terrorismo, os fiéis – em sua maioria, compostos por brasileiros e senegaleses – se reúnem semanalmente e encontram paz nas orações.

Nos últimos 20 anos, coube ao Sheik Mabrouk El Sawy, que estudou teologia no Egito, a missão de coordenar as atividades do Centro, conduzindo preces e cerimônias nas datas comemorativas. O local também é usado para ensino de religião, aulas de árabe, casamentos e funerais. Os seguidores do Islamismo no Recife fazem questão de sublinhar que não têm como objetivo converter pessoas à religião, pois acreditam que a conversão está relacionada ao destino e à fé individual. Quem escolher segui-la, entretanto, deve se submeter às regras e normas regidas pelo Alcorão – considerado um livro sagrado. Somente neste ano, o pequeno espaço recebeu vinte novos integrantes e realizou cinco casamentos.

O conselheiro consultivo do Centro Islâmico do Recife, Alberto Bret, 62 anos, revela que possui família católica, mas se converteu ao Islã há dez anos. A decisão acrescentou novos costumes à sua rotina baseados no Alcorão, como jejuar nos 30 dias do mês do Ramadã – um período sagrado para os muçulmanos em que a fé é renovada. “O Islamismo trouxe uma orientação mais sólida para a minha vida, com regras bem estabelecidas”, explica. No Centro, todos o conhecem como “Rashid”, nome que significa “atributo de Deus”. O apelido árabe não é obrigatório para muçulmanos, mas a maioria prefere adotar um.

Além de brasileiros, senegaleses também costumam ir ao Centro Islâmico do Recife. Um deles é Amadou Toure, 46 anos, que se mudou para o Brasil há uma década e meia. Comerciante nas feiras dos bairros da Região Metropolitana do Recife, ele conta que é muçulmano desde o nascimento e pontua que, no Senegal, mais de 90% da população segue a religião islâmica. “Todo muçulmano, quando chega em um novo lugar, deve procurar um centro ou uma mesquita para se reunir e realizar as práticas religiosas”, diz. É comum a visita de grupos de viajantes, chamados de Jamah. São pessoas de diversas nacionalidades que se encontram para conhecer comunidades, conversar com muçulmanos de diferentes cidades e ensinar religião.

Orações

A oração, um dos pilares da religião, deve ser realizada pelos muçulmanos em cinco horários específicos do dia. As preces são feitas em direção à cidade de Meca, localizada na Arábia Saudita.

Orações

Alcorão

Os princípios básicos da religião transformaram-­se no Alcorão, livro sagrado do Islamismo. Ele é lido da direita para a esquerda.

Recifense e frequentador do Centro há vinte anos, o aposentado Abdullah Cavalcante, 52, conta sobre uma experiência que tocou seu coração em 2012. Ele e um grupo de muçulmanos brasileiros receberam passagens de entidades islâmicas de São Paulo para a Hajj, que significa a peregrinação até a cidade de Meca – tida como quinto e último pilar da religião. “É fundamental na vida de um muçulmano sair de sua cidade natal até a cidade sagrada (Meca), mas quem não possuir condições financeiras ou de saúde é compreendido pela comunidade”, destaca Abdullah, que passou 17 dias na Arábia Saudita. Anualmente mais de 13 milhões de muçulmanos visitam Meca, entretanto, é proibida a entra de pessoas que não sejam praticantes da religião.

 

Abdullah Cavalcante/Cortesia

Pilares do Islamismo

O fiel deve acreditar  e professar em forma de declaração que não há Deus senão Allah e que Mohammad é o seu profeta.

Jejum

No mês do Ramadã, os muçulmanos abstêm-se de comida, bebida e relações sexuais durante o período diurno.

Caridade

Contribuições em favores ou dinheiro como um tributo religioso e demonstração de amor ao próximo.

Peregrinação

Realizada pelos muçulmanos até Meca. Aqueles sem condições podem abster-se de ir até o local.

Intolerância religiosa

Pertencer a uma minoria no Recife não é fácil. Alberto Bret (Rashid) têm consciência disso, embora avalie que o Islamismo tem sido tratado com mais respeito pela população da capital. De acordo com ele, os casos de preconceito religioso geralmente miram as mulheres por conta da vestimenta característica. “Algumas já foram chamadas até de mulheres bomba na rua”, lamenta o conselheiro.

Para o pós-­doutor em ciências sociais e jurídicas pela Universitat de Barcelona e em sociologia pela UFPE, Marcos de Araújo Silva, uma das causas da intolerância tem sido a maior visibilidade do Estado Islâmico na mídia sem a devida contextualização histórica do mundo muçulmano. “Desde o assassinato dos franceses que trabalhavam na revista Charlie Hebdo, em janeiro de 2015, vem ocorrendo um aumento significativo da islamofobia”, analisa. Colegas muçulmanos dele que vivem no Recife e em Olinda chegaram a comentar sobre os estereótipos que precisam quebrar. “Uma senhora muçulmana que mora em Afogados, por exemplo, me disse que evita sair de casa e se deslocar em transportes públicos. Já cansou de ouvir ofensas que a machucam profundamente”, recorda Marcos, que também é Pesquisador do Instituto de Estudos da América Latina da UFPE.

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Duas vertentes são reconhecidas no Islamismo: sunitas e xiitas. A separação teve origem em uma disputa logo após a morte do profeta Maomé para decidir quem deveria liderar os muçulmanos.

O sonho da mesquita

A comunidade muçulmana do Recife, ainda que pequena – com cerca de cem membros – já sente a necessidade de ter uma mesquita. Esse é um dos grandes sonhos dos frequentadores do Centro Islâmico. Vários deles são comerciantes, professores e ambulantes que não podem contribuir com recursos financeiros para a construção. Por outro lado, Rashid enfatiza que viabilizar a mesquita seria importante porque a oração nela é considerada de maior valor que as feitas em casa ou no trabalho. “A mesquita também disponibilizaria uma estrutura efetiva de apoio aos muçulmanos, como consultórios médicos, salas de aula, refeitórios e dormitórios”, analisa.

O pesquisador Marcos de Araújo Silva explica que a mesquita poderia conferir maior visibilidade à religião e reconhecimento por parte da população não-muçulmana. “Acho que a possível futura abertura de uma mesquita aqui no Recife ajudaria a diminuir os preconceitos em relação à comunidade islâmica da cidade. Isso ocorreu em outras cidades brasileiras no passado e também em outras capitais do mundo que hoje apresentam uma forte presença muçulmana”, opina.

Praticantes no mundo

Praticantes em Recife

Muçulmanos e o idioma árabe

Para os muçulmanos, o Alcorão – livro sagrado – é considerado o caminho para o paraíso. Por essa razão, suas páginas sempre são coloridas e enfeitadas com muitas flores e símbolos que representam o paraíso. Nos rituais religiosos das sextas-feiras e nas festividades, como no Ramadã e na Festa dos sacrifícios, o Alcorão é lido em sua língua original, o árabe, para preservar a gramática e o sentido.

“Todas as áreas da nossa vida têm orientação no livro sagrado [Alcorão], desde ética e moral a direito civil e ecologia. Vai do código da família até direito do comércio”, relata o conselheiro consultivo do Centro, explicando também que existem traduções do livro, mas para os muçulmanos o ideal é aprender a língua original. Filho de libaneses, Chuaib é professor de idioma e hoje ministra aulas de árabe nas manhãs dos sábados para auxiliar a comunidade muçulmana que frequenta o Centro Islâmico do Recife. “Mesmo que as pessoas não aprendam a falar, priorizamos a leitura e a memorização dos versículos do Alcorão, pois nas orações são recitados esses versículos”, explica o professor.

Chuaib/Cortesia

Centro Islâmico do Recife

Rua da Glória, 353, Boa Vista, Recife
Horário: das 9h às 15h, de segunda a sábado
Telefone: (81) 3423­-1393
Ellen Tavares

Ellen Tavares

Repórter

Ellen é estudante de jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco.

Fotos: Anderson Freire

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