Educação, o combustível da mudança

No terceiro dia da série As cidades dentro do Recife, mostramos como a desigualdade se reflete também no campo da educação e o quanto o desempenho individual faz diferença na busca por oportunidades. Amanhã, discutimos como a qualidade de vida interfere na longevidade

 

Maria Clara Silva e Felipe Terto estudam no mesmo bairro do Recife, distantes algumas dezenas de metros. Ela, no colégio particular GGE. Ele, na Escola Municipal Padre Antônio Henrique. Aos 15 anos e cursando o 1° ano do ensino médio, a garota tem o sonho de cursar medicina e ser “cirurgiã ou legista”. Aos 13 anos, o aluno do 8° ano busca inspiração no tio para ser administrador. “É só eu me esforçar que eu consigo”, resume. Em comum, o fato de serem bons alunos, entre os melhores da turma, e o apoio da família na conquista do desejado futuro. A sutil diferença está nas “armas” que dispõem para alcançá-lo.

De acordo com dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) referentes à educação de base no Recife de alunos da 5ª série, enquanto o ensino municipal soma 4,2 (numa escala que vai de 0 a 10), a rede privada atinge 6,2. Na oitava série, a diferença é 25% maior: 3,2 contra 5,7.

Os dados mais recentes são referentes ao ano de 2013, mas as projeções do índice para o ano 2021 ainda registram a manutenção da considerável diferença de desempenho dos estudantes.

Peu Ricardo/DP

Alicerce fundamental na construção futura de uma sociedade menos desigual, a educação na capital pernambucana ainda desempenha papel preponderante para a manutenção do cenário de concentração de renda. “De modo geral, inclusive no Recife, os investimentos em educação são insuficientes, gerando, como consequência, fragilidades estruturais de ensino e aprendizagem. Isso resulta do pouco investimento em questões como a melhoria do parque escolar, dos equipamentos necessários para o seu funcionamento e dos materiais indispensáveis ao trabalho docente”, aponta a mestra em Educação do Centro Acadêmico do Agreste da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Evaneide Silva.

j

IDHm Recife: 0,734

Renda: 0,736
Educação: 0,662
Longevidade: 0,813

Peu Ricardo/DP
Ideb em Pernambuco
  • 5ª Série – Rede pública: 4,2
  • 5ª série – Rede privada: 6,2
  • 8ª série – Rede pública: 3,2
  • 8ª série – Rede privada: 5,7

Isso não significa que Maria Clara tem a garantia do sucesso ou que Fábio está fadado ao fracasso, mas, em linhas gerais, a educação é fator determinante para definição do futuro. Enquanto ela tem a oportunidade de estudar inglês três vezes na semana, além do horário do colégio e reclama apenas da estrutura da cantina da escola (“que poderia ser maior”), Felipe tem uma lista um pouco mais extensa. O laboratório de informática está fora de funcionamento, os banheiros costumam ser sujos e as aulas de educação física são improvisadas, já que não há quadra.

“Um processo educacional qualificado é extremamente valioso, pois assegura uma formação profissional possibilitadora de inserção no mercado de trabalho, melhoria da condição pessoal e prepara para uma atuação crítica e competente como cidadão”, expõe Evaneide.

Para o professor de economia da UFPE Raul Silveira, uma base educacional mal feita pode gerar consequências refletidas em longo prazo. “Uma vez que o mercado de trabalho ‘precifica’, através de diferentes remunerações, os diferentes níveis de produtividade dos trabalhadores, a principal determinante destes diferenciais de produtividade é a quantidade e a qualidade da escolaridade”, opina.

Os pais de Maria Clara conseguem, com algum esforço, pagar a mensalidade do colégio e confiam que a boa educação de agora renderá frutos. “Minha mãe acredita que é um investimento que vale a pena e que quer me dar condições de prestar vestibular de igual para igual com meus concorrentes”, conta a garota. Fábio mora com os avós, junto a dois irmãos e uma irmã, para ficar mais próximo da escola. Na casa de Fábio, com o exemplo do tio, a determinação é o ponto principal. “Confio em um futuro bom para ele. Meu filho (tio de Felipe) estudou a vida toda em escola pública e é administrador. Ele é estudioso, depende dele. Basta querer, ter força de vontade”, relata a avó de Felipe, Valéria da Silva, desconhecendo os dados que sugerem que pode ser necessário um pouco mais que isso.

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dos recifenses entre 15 e 17 anos têm ensino fundamental completo

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dos recifenses entre 18 e 20 anos têm ensino médio completo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A necessária política de compensações

 

 

Um dos mecanismos encontrados para remediar a má qualidade do ensino público de base e compensar o histórico de desigualdade socioeconômico e racial do Brasil são as cotas que, desde 2015, reservam metade das vagas de diversas universidades federais e estaduais, além de institutos tecnológicos, para negros e estudantes oriundos de escolas públicas. “Essa política como uma medida emergencial, para tentar minimizar débitos históricos com extratos da população que têm sofrido discriminação e violência absurdas e nefastas é de grande valia”, opina a pedagoga Evaneide Silva.

mil alunos entraram na universidade, oriundos de escola pública, apenas em 2015

mil negros conseguiram vagas em instituições públicas de ensino, entre 2012 e 2015

Somente no primeiro ano de implantação da regra dos 50%, foram mais de 80 mil vagas reservadas para quem fez o ensino médio em escolas públicas. De acordo com dados da Secretaria de Políticas para a Promoção da Igualdade Racial do governo federal, ente 2012 e 2015, 150 mil pessoas que se declaram como negras ingressaram nas instituições públicas de ensino por meio da política de compensação.

Apesar de favorável ao mecanismo, Evaneide destaca que as cotas devem ser uma política com prazo de validade: “Espera-se que, ao longo do tempo elas não sejam mais necessárias, que se construa uma sociedade aberta às diferenças e inclusiva para todos”.

João Vitor Pascoal

João Vitor Pascoal

Repórter

João é estudante de jornalismo da UFPE. Estagiário do Diario desde 2014, escreveu para a editoria de Política, antes de compor a equipe de dados, no CuriosaMente.

Peu Ricardo

Peu Ricardo

Fotógrafo

Peu integra a equipe de fotografia do Diario de Pernambuco desde 2015.

Brenda Alcântara

Brenda Alcântara

Fotógrafa

Brenda é estagiária do Diario há um ano e captura todas as cenas do dia, de protesto a anúncios de políticos.

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