Desbravando os mistérios do céu de Pernambuco

Astronomia ganha espaço na terra do “primeiro observatório da América Latina”. No Grande Recife, cursos gratuitos e observatórios estão disponíveis para a população

 

Como todo bom pernambucano, o observatório astronômico do Alto da Sé, ostenta um recorde: é o mais antigo de toda a América Latina. Apesar de só ter sido levantado oficialmente por Duarte Coelho, em 1890, o espaço já servia como ponto de observação de astros anos antes, e foi onde o Cometa Olinda, o primeiro da América Latina, foi descoberto. Apesar de ter feito história, Pernambuco – como o Brasil como um todo – não possui grandes investimentos quando se trata de astronomia. E é no estado, por exemplo, que se encontra o Observatório Nacional, o Impacton, em Itacuruba, no Sertão. Ainda assim, há cursos gratuitos para amadores ou amantes do céu que desejem ver, por exemplo, a constelação de escorpião, que na bandeira do Brasil representa o Nordeste, visível até agosto de 2016 a partir do Grande Recife.

Quem for começar agora, também poderá ver marte, que se aproxima da Terra de dois em dois anos e atingiu uma das maiores proximidades do planeta em maio de 2016, ou Júpiter, sempre visível, além da via láctea, que pode ser vista a olho nu e acaba confundida com nuvens. Um começo interessante pode ser feito na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), cujo curso gratuito do departamento de física, oferecido desde 2014, é um sucesso. São 40 vagas, aos sábados pela manhã, abertas a cada dois meses.

Também é possível aprender sobre astronomia com os cursos da Sociedade Astronômica do Recife (SAR), criada na década de 70, que reúne centenas de astrônomos amadores de Pernambuco. Ao todo, já foram 13 edições ministradas. “O que deixamos claro no curso é que sempre é legal começar com o binóculo, que aproxima de 7 a 10 vezes mais, assim você consegue ver uma grande área do céu, mais do que a olho nu”, explica Leonardo Neves, membro da SAR, recomendando ainda a utilização da luneta para iniciantes, que devem ir evoluindo até chegar aos telescópios.

Thairo Alencar / Arquivo Pessoal

Na hora de observar os astros, é interessante seguir algumas instruções, principalmente em espaços muito urbanizados. “No caso do Recife, é sempre melhor observar o céu quando a cidade dorme, depois das 22h ou à meia-noite, quando as luzes dos prédios são desligadas e a poluição luminosa diminui”, explica o astrofísico e professor da UFRPE, Antônio Carlos Miranda. “É só adquirir o instrumento, telescópio ou mesmo um binóculo, ir a um lugar escuro e ter disposição para observar”, disse.

Seis meses depois de participar de um dos cursos, o empresário Thairo Alencar, 27, se envolveu tanto com a ciência que construiu o Alencar’s Heaven, observatório de grande porte no quintal de casa, em Araçoiaba. “Fiz amizade com uma pessoa que não tinha onde colocar o telescópio, fizemos uma parceria, eu comprei parte do equipamento e ele cedeu outra”, explica. O investimento foi de cerca de R$ 7,5 mil reais. “Hoje, o grande problema da astronomia no Brasil é que tudo é importado, tanto o dólar alto quanto os tributos para importar são difíceis”, avalia.

Planetas

Saturno
saturno
Tem um brilho amarelado e 62 luas, pode ser visto a olho nu, como uma “grande estrela” Visível na constelação de Escorpião.
Até quando pode ser visto? A temporada de observação do astro vai até o fim de outubro.
Melhor horário para visualizar Pode ser visto durante toda a noite, com uma aproximação de 40x através de telescópio já é possível ver um dos seus anéis.
Marte

marte

O planeta vermelho tem metade do tamanho da terra e apresenta essa coloração por causa da quantiade de óxido de ferro na sua atmosfera. Fica próximo à constelação de Libra.
Até quando pode ser visto?  Fica visível até o fim do mês de agosto. Depois disso, só poderá ser visto em agosto de 2018.
Melhor horário para visualizar – do pôr do sol (entre 17h e 18h) até as 23h.
Júpter

jupter

 

O maior planeta do sistema solar. Fica visível na constelação de Leão junto com 4 das suas 67 luas.
Até quando pode ser visto? – Até o início de agosto.
Melhor horário para visualizar – Assim como Saturno, o planeta pode ser visto ao longo de toda a noite.

Constelações

Cruzeiro do Sul

cruzeiro do sul

É  a menor de todas as constelações. Formada por 5 estrelas.
Posicionamento – Na carta celeste de Junho e Julho ela fica localizada no horizonte sul,próximo às constelações de Centauro e do Triângulo austral.
Escorpião

cruzeiro do sul

Representa o Nordeste na bandeira do Brasil. É formado por aglomerados e globos estelares.
Posicionamento – Pode ser vista no Leste do mapa celestial e fica próxima às constelações de Lobo e de Libra.
Na ferramenta abaixo, selecione a data e a hora desejada de observação. Confira o local na parte de baixo (ajustado automaticamente a depender de sua conexão). Pronto! Esse é o “mapa” do que é possível ver de onde você está. Passe o mouse sobre as constelações para identificá-las e clique duas vezes para mais informações (em inglês). O “campo de visão” pode ser ajustado na régua de graus na parte superior.

Paulo Paiva / DA Press

Observatórios abertos (e gratuitos) à população

A astronomia é uma ciência pouco incentivada no Brasil. Só existem dois cursos de graduação na área em todo o País, um na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e outro na Universidade de São Paulo (USP). Só na RMR, dois observatórios podem ser visitados gratuitamente: o do Alto da Sé de Olinda, de responsabilidade do Espaço Ciência, e o da Torre Malakoff, coordenado pela UFRPE e aberta apenas aos domingos, das 16h às 20h.

Foi do ponto de observação do Alto da Sé que, em 1860, o francês Emmanuel Liais descobriu e batizou o pernambucano Cometa Olinda, o primeiro da América Latina. O espaço foi desativado em 1970, mas voltou a funcionar em 2011, recebendo qualquer interessado em astronomia. Monitores estão disponíveis, de terça a domingo, das 16h às 20h, para guiar visitantes pela exposição A próxima fronteira. Nela, a torre se divide pelos três andares em seções representando lua, Terra e universo: “Cada pavimento tem imagens, textos explicativos, experimentos para a pessoa interagir”, explica o coordenador Alexandre Evangelista.

Lorena Barros

Lorena Barros

Repórter

Lorena é estudante de jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco. Já pensou, mil vezes, em observar os astros, mas nunca investiu num telescópio. Confessa que, às vezes, visita o tal “mundo da lua”…

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