Del Chifre, a Punta Del Leste olindense que não deu certo

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Inicialmente batizada com nome de um reduto turístico, a praia de Olinda mudou de nome nos anos 1960 e, recentemente, passa por um processo de abandono

 

Com extensão de 2,3 km, a praia de Puntal Del Chifre, Litoral Sul de Olinda, já foi reduto de finais de semana e referência de banho ou passeios na areia, mas atualmente, a praia é conhecida pela grande quantidade de sujeira e pelos vários animais soltos que circulam no local. Quase abandonada, a praia permite uma visão privilegiada das cidades-irmãs, Recife e Olinda, bem pouco conhecida.

Inicialmente, a praia era chamada de Punta Del Leste, em homenagem à praia uruguaia, internacionalmente reconhecida pelo potencial turístico. Por volta dos anos 1960, os moradores da região lhe deram outro nome, por conta das esposas dos integrantes da Escola de Aprendizes-Marinheiros, que passeavam em suas areias quando eles estavam em viagens de trabalho. O apelido do lugar acabou rendendo o apelido “Del Chifre”, que permaneceu.

Por ter mar aberto, que apresenta grandes ondas, a praia costumava atrair surfistas das cidades de Olinda e Recife, mas quatro ataques de tubarão, sendo o último deles registrado em abril de 2015, diminuíram a frequência dos visitantes.

Na areia, também há desestímulos. Três rios desaguam no mar de Del Chifre – Capibaribe, Beberibe e Pina – e todo o lixo jogado nos leitos deles acaba sendo retido na areia, o que afasta turistas. Os resíduos incomodam também pescadores e moradores da Ilha do Maruim, comunidade erguida ao redor da praia. As principais queixas são a falta de limpeza e o abandono no local. Além disso, a poluição também prejudica diretamente quem tira do mar, o sustento.

 

Hesíodo Goes/DP

Roseane Ezídia, 45, trabalha no bar que o marido herdou da avó, localizado na beira da praia. De acordo com ela, atualmente o espaço só é frequentado por quem reside nas proximidades. “Não tem mais época boa, só os moradores passam por aqui. De vez em quando, aparece um animal morto e o cheiro vem pra cá, aí ninguém quer ficar”. Em relação ao ataque de tubarões, ela acha que deveria haver uma placa informando o perigo que existe no local.

 

Há vida em Del Chifre

 

 

 

 

 

 

 

 

 

José Teixeira, 44 anos, começou a pescar ainda criança. Ele e mais outros pescadores vão em busca do ganha-pão de segunda a sábado, durante dois turnos. Primeiro, das 3h30 às 6h. Depois, saem às 16h e só voltam de meia-noite. “De uns 3 anos para cá, mudou muito, a pescaria fracassou por causa da poluição. Antigamente, a gente pegava entre 40 e 50 kg por dia. Hoje, só conseguimos 10kg.” Ele contou também que, antes de fazer a pesca, retiram plásticos do mar porque vem muito lixo na rede e acredita que a população tem uma parcela de culpa porque joga o lixo nos rios.

O pedreiro Eraldo Farias, 68 anos, pesca há mais de 30 anos e, apesar de morar em Peixinhos, vai à praia pelo menos três vezes por semana, trabalhando durante sete horas por dia. Ele lembra que, há cerca de três anos, conseguia fisgar os peixes mais rapidamente. Diz que, num instante, conseguia 30 kg e logo voltava pra casa. Hoje, diz que a pesca sofreu com a poluição.  “Tá muito fraco, tem muita sujeira. Tudo isso acaba espantando o peixe”, lamenta.

Hesíodo Goes/DP
Hesíodo Goes/DP

Gilberto Filho, 39, diz que vários moradores reclamam de uma suposta falta de compromisso da Prefeitura de Olinda. Ele nasceu próximo a Del Chifre e morava em uma das casas que foram retiradas pela administração pública para ser construída uma avenida. Conta que muitas famílias ainda vivem na Ilha do Maruim e recebem um auxílio-moradia no valor de R$ 130. “Nos retiraram da nossa casa própria há mais de 10 anos para construir uma avenida e nos deram um auxílio-moradia, porém pago um aluguel de R$300,00, e não vemos nenhuma obra sendo feita”, desabafa. Segundo ele, a sujeira é retirada durante alguns dias da semana, porém a vegetação não é removida, o que agrava o acúmulo de lixo.

Há quem aproveite a ausência de banhistas no local para se divertir no final da tarde. Após andar a cavalo para lá e para cá, um rapaz tomou banho de mar junto com o animal e depois partiu.

Situação da praia chega ao campo judicial

 

O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) já está envolvido na definição de como conduzir mudanças na realidade da praia, após denúncias da população. A promotora Maísa Melo informou que o órgão expediu anteriormente uma recomendação para a coleta de resíduos na praia – em uma ação que reuniu nada menos que 20 toneladas de lixo. Além disso, o MPPE recomendou a limpeza no local, no mínimo, por duas vezes semanalmente. No dia 4 de janeiro de 2016, o órgão solicitou um relatório da Secretaria de Obras de Olinda sobre as ações feitas na praia e sobre sua atual situação.

A prefeitura informou que a limpeza é realizada três dias por semana, retirando, em média, 1,5 tonelada de lixo. Segundo a administração municipal, o problema não é só questão de manutenção, mas do efeito dos rios, que trazem resíduos ao desaguar no mar. Quanto à presença de animais, alega estar buscando soluções para a questão. Por fim, acrescenta que está em planejamento um cronograma de limpeza diária no local, previsto para ser cumprido ainda no primeiro semestre de 2016 e que não há projetos concebidos para a revitalização da área.

O relatório semanal da Agência Estadual do Meio Ambiente (CPRH) estuda, há anos, diversos trechos do litoral pernambucano, mas, apesar do grande problema do lixo, a Praia de Del Chifre não faz parte das avaliações.

Daniele Alves

Daniele Alves

Repórter

Daniele é estagiária do Diario desde dezembro de 2015. Estuda jornalismo na Aeso – Faculdades Integradas Barros Melo. Conhece Olinda, mas nunca frequentou a praia de Del Chifre.

Hesíodo Goes

Hesíodo Goes

Fotógrafo

Hesíodo é fotógrafo do Diario desde 2015. Virou fã dos cavalos que encontrou na praia olindense…

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