Criação legal de animais silvestres vira moda no Recife

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Criação de animais silvestres pode ser permitida e legalizada, mas desconhecimento acaba gerando doenças e problemas aos animais

 

Cobras, iguanas, corujas e aves exóticas estão, geralmente, restritas à vida selvagem. Em alguns casos, porém, são criadas como bichos de estimação. Há quem garanta que alguns deles são tão amigáveis quanto um cachorrinho, mas, além da permissão de órgãos autorizados, uma série de cuidados é necessária para a “domesticação” desses animais. A falta de informação na hora de alimentá-los e abrigá-los é um dos principais causadores de problemas de coluna e peso, responsáveis por comprometer até mesmo a locomoção desses pets exóticos. No fim das contas, tratá-los exige mais que apenas tempo e dinheiro.

O cotidiano na casa do estudante Matheus Magalhães pode ser um pesadelo para aracnofóbicos: desde 2013, ele tem como hobby criar aranhas caranguejeiras. “Eu nunca me interessei por bichos comuns”, brinca. Apesar do pet não ser tão popular, ele garante que ninguém se incomodou com isso ainda e acompanha fielmente o seu desenvolvimento. “Ela já trocou de exoesqueleto mais de uma vez, cresceu bastante”, afirma.

O maior desafio em tornar animais silvestres em pets é que nem todos são regularizados, logo, alguns proprietários têm medo de procurar cuidado profissional. A veterinária Adriana Vieira de Melo, uma das poucas que lidam com esses tipos de seres no Recife, tem na longa lista de pacientes atendidos algumas cobras, jabutis, papagaios e até mesmo corujas. Ela lembra que, mesmo com a regularização sendo um assunto delicado, a saúde do bicho vem sempre em primeiro lugar. “É melhor salvar a vida do animal e explicar para as pessoas que aquilo não é correto do que deixar de atender”. Nos anos de trabalho, alguns casos curiosos apareceram no consultório de Adriana. Ela já precisou reparar com fios de aço e resina odontológica o casco de uma tartaruga atropelada e acompanhar de perto, com raios x, o desenvolvimento intestinal de outra que engoliu um pedaço de cano do viveiro em que era mantida.

Na série de atendimentos “curiosos”, está também a assistência a um aracnídeo. “No caso da aranha, primeiro é preciso deixar ela se acostumar com você para depois manuseá-la, ou ela pode soltar alguns ‘pelos’ urticantes como defesa”, lembra, acrescentando que a falta de informação de alguns proprietários termina causando lesões nos bichos. “Muitos não procuram se informar dos detalhes que esses eles precisam. Você vê aves com dificuldade de locomoção porque vivem em poleiros de largura errada, lisos ou ásperos demais”, exemplifica.

Vidas dedicadas aos animais

Criadouros de animais exóticos têm desafio que vai além da burocracia que envolve a autorização para criá-los, dado que alguns deles exigem cuidados específicos

 

Cinco anos se passaram até que o criadouro Caetés pudesse ter autorização oficial para passar a existir. Negociações, vistorias e muita papelada foi necessária para que o local, onde é possível encontrar até mesmo aves em risco de extinção, pudesse ser aberto, ainda no ano 2000. Distante do centro do município de Igarassu, os quase 200 viveiros hoje abrigam cerca de 600 aves, algumas delas, a exemplo do papagaio cinza do Congo ou o Lori australiano, valendo milhares de reais.

Uma série de preocupações envolve quem se aventura nesse ramo. Entre os alimentos preferidos dos pássaros estão manga, maçã e jiló. Caixas são compradas semanalmente para alimentação e o veterinário faz visitas periódicas para garantir a saúde de todos. A manutenção de gaiolas, alimentação dos bichos e pagamento dos funcionários custam, mensalmente, R$ 12 mil.

O controle dos animais é feito em espaços de reprodução, incubadoras e contam com a ajuda de uma caderneta de atividade de cada espécie. Os filhotes são marcados com um número de triagem, requerido pelo Ibama, e os compradores passam por um processo de orientação para dar a melhor estrutura aos bichos. Quem cuida deles assegura: “Nenhum é agressivo, todos são tranquilos desde que você manuseie-os de forma adequada”.

 

Os problemas mais comuns:

Jabuti

jabuti-ilustracao-gregProblema nas costas

O jabuti é um animal “feito” para a terra. Quando criados em pisos lisos, podem desenvolver problemas na estrutura óssea e chegar a ter locomoção impedida.

Aranha

aranha-ilustracao-gregMuita exposição à luz

Se os terrários desses animais forem colocados em locais expostos diretamente à luz solar. Isso pode causar sérios problemas de saúde, pois prejudica os hábitos noturnos do bicho.

Iguana

iguana-ilustracao-gregProblema na coluna

Os animais não podem ficar em espaços apertados ou não conseguem espaço suficiente para esticar o corpo. Com isso, criam problemas nas coluna e sentem dores constantes.

Aves

passarinho-ilustracao-gregPeso inadequado:

A dieta inadequada de aves pode fazer com que elas fiquem muito obesas para locomoção ou que não tenham força suficiente para trocar de penas.

Problemas estruturais:

Os pés das aves, assim como pés de humanos, são diferentes de acordo com tamanho e espécie. Se eles tiverem um poleiro grande demais, pequeno demais ou muito áspero ou liso, podem ter desenvolvimento comprometido.

Cobra

cobra-ilustracao-gregSuperaquecimento:

O viveiro de cobras precisa ter temperaturas específicas a cada hora do dia dependendo da espécie. Em muitos casos, é necessária a utilização de um aquecedor. Se o ambiente for muito aquecido, o animal pode morrer.

Serragem inadequada:

Muitos cuidadores utilizam extrato de madeira para tornar o ambiente agradável, mas o cedro nunca deve ser utilizado, pois é extremamente tóxico para o animal
A professora de inglês Renata Sturlini é dona de quatro espécies diferentes de aves e garante que elas podem ser tão carinhosas quanto os tradicionais animais domésticos. Escolheu os animais silvestres porque a cachorrinha de estimação, da raça Shi-Tzu, não aceitava um companheiro de quatro patas. Em pouco tempo, se apaixonou. Hoje, conversa, brinca e tira até “selfies” com eles. O custo, tanto para adquirir quanto para cuidar dessas aves, porém, é grande. “Em Pernambuco, é difícil achar rações e sementes de qualidade, então trago do interior de São Paulo. As visitas de veterinário, feitas a cada três meses, também são um investimento alto”, conta.

Para a agente de viagens Juliana Carvalho, o desejo de criar um furão só pôde se tornar realidade quando ela se mudou para São Paulo. “Sempre tive vontade de ter um, mas em Recife não tinha”, comenta. Ela foi a um veterinário especializado para saber informações sobre a espécie e decidiu comprar um. Logo depois, adquiriu outro. Oito anos se passaram, um deles morreu, mas hoje ela e Farofa, como é apelidado o animal, são melhores amigos, chegam a dormir juntos todas as noites. “Costumo a dizer que ele tem o silêncio do gato com a alegria do cachorro, eles não atendem pelo nome, mas são muito amigáveis”, brinca.

Na cidade de Rio Formoso, Mata Sul do Estado, quem cuida de quase 100 serpentes, lagartos e tartarugas é a veterinária Luciana Rameh. Em 2003, criou um viveiro com o marido, o biólogo Alex Zanotti, no estado de São Paulo. Em 2007, mudaram-se para Pernambuco e precisaram esperar três anos para legalizar a situação com o Ibama. Seu viveiro, no entanto, serve de “refúgio de preservação”, em vez de ponto de vendas. Entre os destaques estão a tartaruga-aligator, animal de água doce considerado um dos animais com a aparência mais próxima dos dinossauros.

Mas a licença que obteve, na verdade, sequer permite a cobrança de ingressos para visitação dos animais, significando que ela precisa tirar os cerca de R$ 600 mensais para manter as instalações e pagar a alimentação dos bichos, de maioria carnívora, do próprio bolso. “Sou veterinária e meu marido é biólogo, então não preciso contratar ninguém pra cuidar desses animais, mas se não tivéssemos essas profissões seria impossível”, afirma.

Juliana Carvalho - Arquivo Pessoal

Os bichos e a arte da readaptação

Em Pernambuco, o órgão responsável pela fiscalização de animais silvestres é a Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH). A instituição mantém um Centro de Triagem de Animais Silvestres, responsável por lidar com bichos silvestres entregues ou capturados pelos agentes, localizado no bairro da Guabiraba, zona Norte do Recife.

mil animais foram apreendidos ou entregues ao CPRH nos 10 primeiros meses de 2016

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mil desses animais são pássaros

reais é o valor mínimo da multa (por animal) aplicada a quem cria animais silvestres sem autorização

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mil é o preço máximo da multa, como quando o animal está em risco de extinção

Para o local, são enviadas as espécies que deveriam habitar livremente a natureza identificadas em qualquer parte do Estado. Dessa forma, os animais passam por tratamento com biólogos e veterinários, para readaptar-se ao habitat, com a intenção de serem liberados, normalmente após alguns meses – a depender da espécie e do “dano” que o ser humano o tenha causado – para retornar ao convívio na natureza.

Alguns animais precisam passar por longas viagens para serem libertados, como é o caso das aves de caatinga, enviadas para o interior do estado, e da Arara Azul, natural do Cerrado e Pantanal. O portador de animal que não tiver autorização e quiser se regularizar pode tentar emitir a licença pela internet acessando o site do CPRH.

Lorena Barros

Lorena Barros

Repórter

Paulo Paiva

Paulo Paiva

Fotógrafo

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