Como foram escritos os grandes hits de compositores pernambucanos

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Não há de se contestar que Pernambuco é terra de artista. O talento em transformar experiências pessoais e o mundo que os cerca em música é disseminado do Litoral ao Sertão. E muitas se tornam sucessos e são consumidas pelo público, com sede de boas canções. O que comumente se perde são as histórias de como esses hits foram criados, muitas vezes curiosas, porque a única pessoa que realmente pode falar com propriedade sobre assunto, é o próprio compositor.
de Petrolina

Geraldo Azevedo: Pro que der e vier

Feita por partes, Dia Branco começou com uma melodia e um arranjo. Sem letra, foi feita de forma solitária em casa. A sucessão de notas lúgubres vinha embebida no conteúdo do disco triplo All Things Must Pass, lançado por George Harrison, em 1970, logo após o termino dos Beatles. “Eu escutava aquilo o tempo todo, sem parar. Tenho certeza que a música foi muito influenciada por aquele álbum. Na verdade, os Beatles influenciaram o mundo todo, de um jeito ou de outro”, avalia o cantor.

Depois de pronta, Geraldo levou melodia e harmonia para Renato Rocha, seu parceiro de composições, ouvir. Várias vezes. “Ele morava no bairro da Glória, no Rio de Janeiro, num apartamento onde eu ia muito para visitar, farrar e, claro, compor. Ele ouviu a melodia, cantou a primeira frase da letra naturalmente e nós dois achamos aquilo tão perfeito que vibramos, comemorando. Pensamos: ‘É um achado!’. Só que a frase era tão boa que tudo o que vinha depois parecia fraco em relação a ela”, lembra. “Tivemos que ficar nos encontrando durante quase dois anos, tentando criar uma letra que nos satisfizesse.”
Em paralelo aos últimos encontros, a música, com a letra sempre se modificando, ia sendo tocada em shows e mostrada às pessoas, até que Elba Ramalho a ouviu e gravou, tornando-a em um sucesso imediato. Antes, Geraldo enviou Dia Branco para Gal Costa que, “ou não recebeu ou não deu o valor devido”, como ele mesmo brinca. “Eu tinha interesse de mandar para Roberto Carlos, só que não consegui um contato para chegar até ele.”  “Mas do jeito que foi, essa música marcou a vida de muita gente. Ela reflete o que elas sentem e querem dizer. Lembro de uma enquete feita pouco depois que ela foi lançada que dizia que oito, em cada dez casamentos realizados em Salvador, na Bahia, tinham essa música na trilha.”
Divulgação
do Ipojuca

Nando Cordel: Flor com cheiro de censura

Aos 62 anos, Nando Cordel têm mais de mil canções assinadas. O ipojuquense compõe em qualquer lugar, sob quaisquer circunstâncias. Com um violão no meio da rua ou utilizando um papel improvisado em um local abarrotado. Quando a inspiração e/ou a necessidade chega, nada impede que o artista anote uma nova obra. E, apesar da grande quantidade de composições, algumas são especiais a ponto de Nando lembrar todos os passos de sua fabricação, mesmo que décadas tenham se passado. Flor de Cheiro, seu primeiro grande sucesso, de 1982, é um exemplo dessas músicas que têm um lugar mais profundo no coração do cantor.

O contexto em que o hit foi escrito é conhecido da maioria dos artistas. Nando estava “na batalha”, como ele mesmo descreve, para conseguir uma gravadora. Morava no bairro boêmio do Bexiga, em São Paulo, no apartamento de um tio. Tinha 28 anos. “Um dia, finalmente consegui a gravadora, mas fui avisado de que precisava de mais uma canção. Passeei pelas ruas e, quando cheguei em casa, liguei a televisão para ver o jornal. Vi matérias sobre assaltos, sobre falta de médicos, sobre pessoas passando fome e comendo ratos. Não conseguia entender como havíamos chegado àquele ponto. Desliguei a tv, peguei uma caneta e um papel e Flor de Cheiro foi o resultado”, conta.
A música ficou pronta e, no dia seguinte, foi “testada”, como é costumeiro acontecer com as canções de Nando. O cantor toca a composição para um público mínimo e, a depender da reação, ela entra – ou não – no repertório de criações. “Se dizem que é ‘boazinha’ eu já jogo fora sem nem pensar duas vezes. Flor de Cheiro eu mostrei para três amigos que me visitaram e eles ficaram impressionados com ela”, lembra. “Soube, então, que era a canção que faltava para o disco, cheia de outras músicas no mesmo estilo.
A canção mostrada para os amigos, contudo, tinha a letra diferente da conhecida pelo público. Na original, o cantor pede para a flor de cheiro, uma espécie de metáfora da esperança, fecundar o povo da América, que esmola por tempos melhores. “A palavra ‘povo’ foi trocada por ‘flores’ porque eu afrouxei quando a censura veio me questionar o significado daquilo. Eu disse que errei, que escrevi errado. Inexperiente, fiquei com medo de a música não sair”, se explica.
A forma que Flor de Cheiro foi composta é usual, mas não é a mais curiosa. Ele conta que De volta para o Aconchego, por exemplo, foi escrita num guardanapo de restaurante. No Rio de Janeiro, depois de gravar Isso Aqui Tá Bom Demais, com Dominguinhos, os dois foram jantar. “Estávamos comemorando. Mas ele de repente começou a ficar muito triste, com os olhos molhados, e me disse que estava com saudade de casa e que tinha brigado com a esposa. Na hora, peguei o guardanapo e escrevi a música, imaginando ele chegando em casa, pois eu bem sabia como era que acontecia. Muitas vezes, voltamos juntos de madrugada depois de nos apresentar, eu segurando na outra alça da sanfona. Pensei no amor deles dois, no sorriso sincero, e a música saiu.” Outra diferença dessa composição é que o arranjo que acompanharia a melodia e a letra foram feitos por uma terceira pessoa, em outro dia. Dori Caymmi criou os acordes e a música foi finalmente apresentada a Elba Ramalho, que a eternizou.
Dominguinhos e Nando Cordel. créditos: Isabella Valle/olhONu
de Jaboatão dos Guararapes

Fred Zero Quatro: Um esquema só

Meu Esquema é, sem dúvida, a canção mais famosa do Mundo Livre S/A. Quem ouve, se sente na praia, de férias, ao lado da pessoa amada. Pois foi justamente nesse contexto que ela surgiu. Depois de uma longa turnê divulgando o álbum Carnaval na Obra (1998), o líder da banda, Fred Zero Quatro, não via a hora de passar um tempo com a mulher, Maria Eduarda. Chegou em casa, em janeiro de 1999, e ficou tempo suficiente apenas para aprontar as malas e partir com ela para a praia de Serrambi, em Ipojuca.

“Ela é meu bloco de carnaval, minha evolução…”

Fred Zero Quatro

Compositor

Assim que descarregou o carro e descansou os pés, Fred recebeu uma ligação do produtor Guto Graça Mello, pedindo para ele voltar ao Recife. “Disse: ‘tem um bloco novo aqui, o Guaiamum Treloso, que quer te homenagear’. Mas eu não tinha intenção de voltar e pedi para ele falar para o pessoal que estava em Serrambi, onde outro bloco iria me homenagear. Ele deu uma gaitada na hora, porque sabia que era sério, que eu estava com saudade da galega e não ia voltar”, lembra.

Fred explica que a música foi uma extensão do que ele pensou naquele momento. A “galega” era o esquema dele naquelas férias. Não tinha praia, carnaval nem jogo de final de campeonato que modificasse os planos. Percebeu, então, que aquele raciocínio era poético, romântico e, como compositor, só podia pensar em transformá-lo em uma canção. “Fiz na frente dela. Peguei o violão, comecei a fazer os versos e quando estavam ruins, ela me dizia para trocar. Foi a ‘editora’ da canção. Quando ficou pronta, percebi que ela tinha potencial e toquei pelo telefone para o produtor do disco que iríamos lançar e ele me disse que aquela era a música da minha vida. O disco Por Pouco já estava em processo de pré-produção, todo organizado, mas por causa de ‘Meu Esquema’, foi modificado.”
Pronta, a música foi escolhida como tema de abertura do programa Tudo de Bom, da MTV, em que Luana Piovani estrelava. “Na época, pensaram que eu tinha feito a música para Luana. A sorte é que Eduarda estava comigo quando eu fiz e aí não houve ciúmes (risos). Outras curiosidades sobre a música são a de muita gente pensar que a música era ‘a nova’ de Jorge Ben e o fato de nosso público ter mudado completamente. Antes, 80% das pessoas nos shows eram homens. Mas hoje, se formos em São Paulo, por exemplo, as mulheres são predominantes.” Posteriormente, a música voltou a repercutir quando entrou na trilha sonora do seriado americano Californication e quando Exaltassamba a regravou.

Parceria à distância

Rios, Pontes e Overdrives, composição de Chico Science e Fred Zero Quatro, teve processo de parceria incomum. O nome e refrão da música saiu do título de um texto escrito por Fred sobre o cenário musical do Recife. “O álbum fechado com a gravadora estava com repertório reduzido e, Chico, precisando compor. Ele gostou muito do título e da frase ‘impressionantes esculturas de lama’ e pediu para utilizá-la na canção, me creditando”, explica Fred.

do Recife

Conde do Brega : Ele faz dele o que quer

Pode acreditar, A Vida é Assim, hit da banda Só Brega, nasceu como uma música de “rock n’ roll pesado”. Antes da banda Só Brega, que estourou no estado em 2004, o conde, autor da canção responsável pelo sucesso, tinha uma banda de “peso”. A transição de rock para brega, de acordo com ele, é fácil e aconteceu durante os ensaios da banda. “A mudança ocorre quando se toca os mesmo “quatro ou cinco acordes” em outro ritmo. A melodia e o arranjo se mantém”, explica.

O Conde não lembra o momento exato em que fez a música original, mas tem certeza que estava sentado com o violão na casa em que sempre morou, na Mustardinha, bairro da Zona Oeste do Recife. “A música é fácil, sem segredos. Eu não lembro exatamente do momento porque a fiz na minha juventude. Na época, tinha três namoradas e duas delas reclamavam muito do que eu fazia. Eu era diferente, sempre fui meio malandro. Pintava o cabelo de vermelho, esse tipo de coisa”, lembra. “Uma brigava porque eu era assim, extrovertido e, a outra, porque eu era muito namorador.”
A música se tornou uma espécie de desabafo do Conde, em que ele pôde dizer a elas que elas não tinham poder sobre ele. Conde não mostrou a música às namoradas, porque tem o costume criar e levar o produto diretamente para a banda. De qualquer forma, não passou muito tempo com elas e garante que continuou fazendo o que queria e sendo namorador. “Eu não passo muito tempo com ninguém. Vou dando um jeitinho de ficar com todas”, finaliza.
de São Bento do Una

Alceu Valença: O primeiro hit a gente nunca esquece

No final da década de 1970, ainda sem nenhum grande sucesso de repercussão nacional, Alceu Valença sentia que o mercado da música era incompatível com a arte que produzia. A sensação, aliada à insatisfação com a situação política do país o levou ao autoexílio em Paris. Foi no apartamento que dividia na capital francesa com o guitarrista Paulo Rafael e a empresária na época, Anelisa, que seria escrita a canção que redefiniria a trajetória artística do cantor.

Alceu começou a a sentir saudades do Brasil e começou a consumir com fervor os livros de Gilberto Freyre e os discos de Jackson do Pandeiro. “O contato com eles, num contexto tão distante, me inspirou a compor uma canção inteiramente brasileira, nordestina, cujo ritmo pulsava no compasso sincopado de Jackson do Pandeiro e seu conjunto Borborema. Era um zabumba bumba esquisito batendo dentro do peito. A música era Coração Bobo”, conta o artista. Até então, ele já havia lançado três álbuns (Molhado de Suor, Vivo e Espelho Cristalino, com relançamento em vinil previsto para 2016). “Minha música sempre teve uma presença forte dos gêneros de Pernambuco, principalmente os do Sertão e do Agreste, onde nasci, mas até então ela possuía um caráter mais underground, uma mistura com elementos de psicodelia.”
Alguns meses depois de composta, a canção foi inscrita no Festival da TV Tupi de 1979. “Voltei ao Brasil e chamei Jackson e seu grupo para me acompanharem no Festival.” Alceu já havia subido ao palco com o cantor – e com Geraldo Azevedo – no Festival da Canção de 1972, quando acabaram desclassificados por problemas no sistema de som do local. Também excursionaram juntos por várias capitais. “Mas voltar a cantar com Jackson num festival uma música que tinha ele como bússola acabaria por reciclar toda a minha trajetória artística e indicar um novo caminho para a minha carreira. O coração aflito como quem diz não tem jeito me aconselhava a ir fundo na essência para encontrar minha própria voz.”
Um dia depois da apresentação no Festival da Tupi, o produtor Marco Mazzola telefonou entusiasmado para Alceu, dizendo que estava à frente de uma nova companhia que começava a atuar no Brasil, a holandesa Ariola. “Ele disse que tinha adorado minha performance em Coração Bobo. Assinei contrato, gravei um novo disco e a música tocou de norte a sul do Brasil. Foi meu primeiro grande sucesso, que projetou meu nome nacionalmente e ajudou a consolidar meu estilo.”
de Salvador (com o coração no Recife)

Karina Buhr: Memória fraca X caderninho forte

Karina não lembra o momento em que escreveu quase nenhuma de suas várias músicas. A compositora compulsiva carrega sempre um caderno pequeno com ela. A qualquer momento pode sair alguma coisa, sem querer – ou não -, e ela está sempre preparada. Por isso mesmo, as exceções, as canções que são compostas através de um processo diferente, são as únicas que ela é capaz de recordar. É o caso de Plástico Bolha, uma das canções mais conhecidas da carreira solo de Karina. “Eu estava fazendo faxina na minha casa e a música começou a sair naturalmente. Eu ia cantando, já no ritmo e com a letra, como se ela já existisse. Fiquei cantarolando ela até chegar no dia do ensaio, quando mostrei para os músicos e começamos a trabalhar nela. Acho até que ela nunca chegou a passar pelo caderninho”, comenta. “Elas vêm assim. Eu não sou do tipo que senta com intenção de começar a criar e daí passa a psicografar tudo. Só fiz uma música por encomenda até hoje. O normal é passar muito tempo pensando sobre alguma coisa e, então, a música começa a sair.”

Paulo Trigueiro

Paulo Trigueiro

Repórter

Paulo é jornalista e psicólogo. Escreve para o Diario desde 2013. Ainda não compôs seu grande hit, mas há de fazer sucesso com um brega (em breve)…

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