Como construir um prédio realmente acessível no Recife?

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Pauta está sempre em discussão, mas recursos que dão independência a pessoas com limitações ainda atendem mais às legislações do que às necessidades

Ainda que esteja “em alta” falar de acessibilidade, tornar um imóvel acessível depende de muito mais que disponibilizar rampas. É preciso colocar-se no lugar do outro e propor formas mais conscientes de auxiliar uma parte da população que, segundo o IBGE, já soma 6,2% dos habitantes – meio milhão de pessoas apenas em Pernambuco. Quando o assunto é a iniciativa privada, trata-se de oferecer acesso. Quando tratamos de repartições públicas, pode-se configurar uma verdadeira privação de direitos.

Era só mais um dia das férias do publicitário Milton Carvalho, 34, mas os dias na viagem foram substituídos por uma burocracia. Pendências que exige a presença na sede da Prefeitura do Recife. Seria um dia comum e sem grandes impedimentos, não fosse o fato dele ser cego, desde o nascimento, graças a um glaucoma congênito, e a experiência de depender de locomoção, mesmo em prédios públicos, ser sempre uma experiência estressante, reproduzida aos montes.

Para conseguir resolver uma pendência simples, Milton dependeu de transeuntes e funcionários do local. “Logo na entrada, tive dificuldades. Precisei pedir ajuda de uma pessoa que estava passando para localizar a escada”, conta. No interior do prédio, encontrou um piso tátil, sinalização com textura no chão – normalmente em círculos azuis no chão, com a finalidade de indicar um caminho com destino final ou alertar algum perigo. No entanto, o recurso acaba antes de chegar a qualquer departamento principal, restringindo a autonomia: “precisei, o tempo inteiro, de auxílio. O piso tátil é deficiente. Eles não possuem mapa tátil e até o acesso é complicado.”

Para o arquiteto especialista em acessibilidade Arthur Batista, uma das questões latentes é que ainda se pensa em acessibilidade como em uma adaptação, não como um princípio propriamente dito.

“Um dos principais problemas da falta de acessibilidade é que ela, geralmente, só é pensada depois que o projeto do prédio está pronto. Ou seja, ela acaba sendo um acréscimo à construção”, explica. “Se o prédio for pensado para ser acessível desde o seu início ele pode, inclusive, nem precisar de rampas porque o profissional pode maximizar as principais funções do edifício em sua base e dar um certo recuo da calçada, proporcionando que a pessoa consiga acessar o local sem sentir o desnível”, reitera.

O desafio de tornar um imóvel acessível reside também no fato de pensar, de fato, na funcionalidade – deixando de lado a mera tentativa de cumprir uma obrigação legal. “Eu já me machuquei seguindo um piso tátil porque tinha uma caqueira posicionada bem no meio dele”, conta Milton, acrescentando que, além disso, é comum entrar em elevadores e encontrar a numeração em braile, mas o sinal sonoro é raro: “A pessoa pode até conseguir apertar no andar desejado, mas para saber se o elevador parou no andar certo vai depender da ajuda de alguém”, simplifica. A crítica é disparada de prédios públicos a centros de compras e aeroportos. “A gente se sente muito desvalorizado enquanto cidadão e consumidor”.

Imagem: GuiadeAcessibilidadeCPA-SP

Problemas dentro e fora dos prédios

No Recife, todos os prédios públicos precisam ser adequados às normas urbanísticas antes da construção. É o que diz a chefe de acessibilidade da Prefeitura do Recife, Sonja Beirão. “As construções seguem normas do decreto federal 5.296/2015 e a NBR 2015, norma brasileira de acessibilidade. Todos os prédios precisam seguir, usando o bom senso. Precisam ter uma circulação livre de barreiras, rampas, corrimão, escada, rota acessível, piso tátil direcionado, banheiro acessível para os dois sexos”, explica.

Outro grande problema correlato aos prédios, que excede as repartições públicas, são as calçadas, muitas com desníveis em meio-fio que favorecem acidentes. Sobre isso, Beirão é enfática: “A calçada é de responsabilidade do morador. As pessoas também precisam pensar nela. Todos os projetos novos precisam ser protocolados nos distritos regionais e eles precisam apresentar as medidas acessíveis. O grande desafio é que existe muita coisa consolidada na cidade, prédios já construídos, antigos. Cada caso precisa ser analisado”.

Irandi Souza/PCR

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desafios até mesmo no caminho do sonho de ser arquiteta

Bárbara Bium, 19, sofreu uma infecção na medula, quando tinha 13 anos, e perdeu o movimento das pernas. Desde então, descobriu sua paixão por plantas de prédios. “Quando era criança, me disseram que quem projetava aquelas plantas eram engenheiros, mas depois descobri o que era a arquitetura”, lembra sobre o início do sonho que começou a se concretizar em março de 2015, no curso da UFPE. No local em que se forma a massa crítica daqueles que serão projetistas de prédios num futuro próximo, ironicamente, lhe apresentou os primeiros desafios na construção da profissão.

No primeiro dia de aula no Centro de Artes e Comunicação (CAC), descobriu que o elevador – exclusivo para cadeirantes, uma vez que é uma plataforma de encaixe para a cadeira de rodas – estava quebrado e sem uma das peças. Com aulas previstas para o ateliê do primeiro andar de um imóvel projetado apenas com escadas, tornou-se o motivo de mudança de toda sua turma para uma sala comum. O ateliê do térreo seria desocupado apenas dois meses depois e o elevador quebraria um sem número de vezes. “Colocaram uma rampa em junho de 2015 e, no segundo semestre, o elevador funcionou quase todos os dias”, lembra.

Nando Chiappetta/DP

Seu acesso no prédio ainda é restrito no mezanino – local de estudos e do Diretório Acadêmico. “É meio frustrante saber que um lugar que oferece o curso de arquitetura não possui critérios básicos de acessibilidade e que os profissionais da área não pensaram nisso. Entretanto, também vejo que estão tentando mudar e resolver os problemas”, diz a garota, que agora pensa em fazer especialização em acessibilidade para evitar que outros passem pelas mesmas privações que enfrenta no cotidiano.

Nando Chiappetta/DP

De acordo com o diretor do CAC, Walter Correia, os integrantes do departamento de arquitetura estão criando um projeto de acessibilidade para o prédio, coordenados pelo professor Gilson de Miranda. “Além disso, demos entrada na licitação de um elevador, já que o que temos é uma plataforma elevatória”, explica.

Ele ainda reforça a dificuldade com a idade do imóvel: “Ele é bem antigo, mas não é tombado e possui características brutalistas, concreto aparente… Por causa disso, essas mudanças são complexas. Precisamos ter cuidado com a estrutura do prédio. Podemos preservar a obra artística, mas não podemos preservar o erro da falta de acessibilidade”, admite o diretor.

Mayra Couto

Mayra Couto

Repórter

Nando Chiappetta

Nando Chiappetta

Fotógrafo

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