Como a tecnologia pode melhorar (e muito) o Recife

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Soluções baseadas na tecnologia aplicadas em cidades do Brasil e do mundo podem indicar caminhos para a melhoria do espaço urbano no Recife

Muita gente, muitos carros, muitas edificações. O Recife sofreu com um processo desordenado de expansão urbana, consequente da falta de planejamento com que a cidade se adaptou aos novos moradores nos últimos 50 anos. Bairros “inchados”, violência urbana e o trânsito mais lento do país, segundo a empresa especializada em GPS TomTom, são questões aguardando por propostas. Algumas das saídas já podem existirem cidades ao redor do mundo. São os recursos que poderiam compor uma “cidade inteligente” – espaços urbanos que encontram, na tecnologia, o pioneirismo necessário para transformar a forma como a população vivencia a cidade. O membro-sênior e porta-voz do Instituto de Engenheiros Eletrônicos (IEEE) Raul Colcher vê soluções na tecnologia da informação para criar cidades inteligentes, que, nas palavras do especialista, são aquelas que “focam no uso de tecnologias avançadas para deixar a cidade mais segura e confortável de se viver”. “Não existe uma receita de bolo. Cada cidade é inteligente por razões diferentes. Um município industrial será inteligente por questões que não seriam aplicáveis em um que seja agrícola. O Recife, que visitei há algum tempo, pode ser inteligente solucionando, dentre outras coisas, questões relacionadas à mobilidade”.

Colcher exemplifica que no Rio de Janeiro e em São Paulo os ônibus trocam informações com centros de operações, isto é, unidades que concentram informações coletadas por sensores em toda a cidade. “Chamamos de Big Data o sistema que permite coletar, estruturar e tratar grandes volumes de dados, através dos quais é possível estabelecer perfis da cidade, realizar deduções e encontrar soluções. Com câmeras espalhadas na área urbana, por exemplo, é possível detectar condições de exceção”. O Recife já possui um organismo de monitoramento, a Central de Operações de Trânsito (COT), que funciona 24 horas por dia e conta com 112 câmeras espalhadas nos mais importantes corredores viários do Recife, utilizadas tanto pela Companhia de Trânsito e Transporte Urbano (CTTU) para monitorar o trânsito, quanto pela Secretaria de Defesa Social (SDS), que pode acompanhar possíveis ocorrências. A central é capaz ainda de, segundo a CTTU, regular os semáforos da cidade de acordo com o fluxo do tráfego e imprevistos – como um protesto ou uma árvore caída.

O consultor de tendências do Porto Digital, Jacques Barcia, no entanto, questiona o conceito de cidade inteligente e sua associação direta com a presença ostensiva de câmeras nas ruas. “Isso não é uma cidade inteligente, mas uma cidade sitiada, a qual sou radicalmente contra. Esse conceito é da IBM e se refere apenas à infraestrutura das cidades, que não podem ser inteligentes se o cidadão não for. Ele precisa retomá-la, compartilhar experiências, torná-la mais habitável e criativa”, comenta. Por isso, Barcia prefere a ideia de uma “cidade brincável” (playable city). “Nela, além de infraestrutura, há o protagonismo do cidadão, onde a rua é um espaço de convivência, as pessoas são priorizadas aos invés dos carros e há brincadeiras. Imagine uma escada numa praça qualquer que também é uma escultura e possui um escorrego de um dos lados. A ideia é tornar as cidades mais agradáveis trazendo o lúdico de volta. Elas estão muito sisudas”, completa dizendo acreditar que a capital possui potencial para ser brincável. “É uma cidade bastante criativa, com pessoas muito interessadas em resolver seus problemas. Algumas empresas já trabalham a questão e discussões estão sendo promovidas”, justifica.

Cidadão participante

A necessidade de participar do processo de construção da cidade está promovendo o surgimento de plataformas que aproximem cidadãos do poder público e do processo de tomada de decisões. Era a ideia do pernambucano Gustavo Maia quando fundou a Colab, já presente em três cidades pernambucanas (Pesqueira, Moreno e Petrolina), que acaba de chegar ao Recife. “As pessoas podem compartilhar os problemas da cidade, divididos em cerca de 80 categorias. Agora, a prefeitura não só receberá as demandas, como poderá resolvê-las”, explica. Ela está presente  em cidades de todo o país, como Curitiba, Natal, Porto Alegre e Brasília e conta com 100 mil cadastrados.

Cerca de 100 funcionários da Prefeitura do Recife estão em treinamento e a ação inicia em junho. “As demandas expostas na plataforma passarão por triagem da Secretaria de Comunicação, que verificará se os problemas são reais e de responsabilidade da prefeitura, que também contará com ferramentas de consulta à população”.

Também chegou à cidade a Rede Nossas Cidades, através da startup Meu Recife, pela qual a população pode fazer proposições ao poder público, que, por sua vez, acata ou não as demandas. “Com esse trabalho, visamos incindir diretamente sobre políticas públicas e fomentar o papel de cidadão de cada recifense, para que ele se sinta cada vez mais pertencente à cidade. Tudo isso alinhado com os nossos princípios, claro: acreditamos num modelo de cidade sustentável, inclusivo, transparente e participativo”, comenta a co-fundadora da plataforma Isabel Cavalcanti, segundo a qual a rede está com financiamento garantido até o final de 2017. Para utilizar a plataforma, basta acessar o endereço http://www.meurecife.org.br/.
Meu Recife expõe suas mobilizações através de sua página na internet

Conheça inovações que poderiam melhorar a vida no Recife:

Marília Parente

Marília Parente

Repórter

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