Cobogós: a maior invenção arquitetônica em linha reta da América Latina

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Cobogós são elementos que deixam as paredes “vazadas”, criados no estado durante fase modernista da cultura nacional

 

Há algo hipnótico nas janelas do Mercado da Madalena, nas fachadas da Caixa d’água de Olinda e da Igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição. A luz da rua consegue penetrar o interior, sem que o ambiente perca a privacidade. A façanha é explicada por um componente em comum: o cobogó. Muitos não sabem, mas o elemento vazado é uma criação de engenheiros pernambucanos e carrega, no nome, as iniciais dos idealizadores: Amadeu Oliveira Coimbra (CO), Ernest Boekman (BO) e Antônio de Góes (GÓ).

O professor de arquitetura da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Roberto Montezuma explica que o recurso construtivo está presente em toda a história da arquitetura – o que os pernambucanos fizeram foi industrializar o componente. “O cobogó é inspirado no muxarabi árabe, uma tela de madeira vazada que escondia as mulheres dentro das casas e ainda possibilitava a ventilação do ambiente. Por aqui, a novidade foi o surgimento do elemento numa escala urbana. Vários pavimentos e fachadas inteiras foram preenchidas por ele”. Assim, a aplicação em prédios é fruto da engenhosidade local. “Os cobogós são mais utilizados na fachada oeste do imóvel, por se tratar do lado poente do sol, que esquenta muito o interior. É um recurso barato, que funciona como membrana protetora em relação à incidência solar”, completa.

Concebido na década de 1920, o cobogó foi criado em um contexto de regionalização do modernismo, que explodia com a Semana de Arte Moderna, em São Paulo. “Pernambuco era um expoente da arquitetura nacional. Recife era a terceira cidade mais importante do país, conhecida como uma capital culta. Na época, em meio à efervescência cultural, surgiu um movimento de tropicalizar o modernismo. O cobogó foi um dos produtos mais brilhantes daquela geração de arquitetos”, comenta a presidente da representação estadual do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), Vitória Régia de Andrade.

Ela ressalta ainda que o IAB luta para que o bairro do Derby seja transformado em polo cultural, por ser um projeto modernista de expansão do Recife. “A área urbanizada do Centro ia apenas até a Boa Vista. O Derby tem muitos jardins por causa do modelo de urbanização da época, que tinha um ideal arborizado. Já naquela época, a arquitetura pernambucana tinha como marca a preocupação com a sustentabilidade”. No mesmo período em que surgiu o cobogó, a praça do bairro foi reformada por Burle Max e foram construídos os prédios do Cinema da Fundação e o Pavilhão Luiz Nunes, sede da IAB e tombado pelo Iphan, justamente por serem algumasdas primeiras edificações com uso do cobogó. “Redescobrir o Derby é redescobrir o Recife modernista”, afirma.

O tempo trouxe diversidade ao recurso arquitetônico. De acordo com o diretor de uma das fabricantes do Grande Recife, a Acinol Pré-fabricados, Sérgio Nassar, hoje criam-se painéis geométricos divertidos combinando cobogós – de quadrados a estruturas circulares e estreladas. “Além disso, a depender da forma, ele pode ter outras funções, como proteger o ambiente da chuva”, exemplifica.

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Peça oferece ventilação e impede que a água da chuva entre no ambiente

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Este cobogó, por sua vez, prioriza a ventilação e a claridade do ambiente
DingbatCobogo/Guilherme Luigi

Influência na arte

O fotógrafo Josivan Rodrigues publicou no livro Cobogó de Pernambuco um trabalho fotográfico de dois anos voltado para os cobogós. O edifício Apolo 21, em Santo Amaro, o prédio do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFPE, na Cidade Universitária, e a sede da Sudene, no Engenho do Meio, estão entre os cenários do projeto. “O que me atraiu foi a presença desse artefato tanto na arquitetura assinada quanto na vernacular. É um elemento muito rico, com soluções estéticas maravilhosas”, comenta.

No campo da criação, o designer Guilherme Luigi concebeu a fonte Dingbag Cobogó. “É uma forma de preservar a gráfica em nosso inconsciente. Existe uma relação afetiva desse elemento com a gente porque ele pode ser encontrado na paisagem. A fonte serve para tornar essa gráfica mais acessível. É uma possibilidade de as pessoas se apropriarem e reaplicá-la”, defende. A fonte é disponibilizada ao público para download gratuito (dingbatcobogo.com.br). Dentre as utilizações expostas no site, há desde um food truck decorado em Berlim até o piso do Portomídia, no Recife.

Algumas aplicações de cobogós no Grande Recife

DingbatCobogo/Guilherme Luigi
Marília Parente

Marília Parente

Repórter

Marília é estudante de jornalismo pela UFPE. Escreve para o Diario desde 2014, a maior parte do tempo para a editoria Vrum, de veículos. Integra a equipe de dados, no projeto CuriosaMente, desde fevereiro de 2016. Morou um tempo no Sertão e só espera uma oportunidade de encher uma casinha própria com o tal do cobogó pernambucano.

Karina Morais

Karina Morais

Fotógrafa

Karina é estagiária de fotografia. Integra a equipe do jornal desde 2015. Rodou a cidade atrás de fachadas com cobogós para fazer a foto mais “vazada” em linha reta da América Latina.

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