Clima fará seca seguir castigando Pernambuco em 2017

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Previsão é de mais chuvas este ano, mas seca já leva 7 em cada 10 municípios à emergência e tem efeito cumulativo em estiagem tão duradoura

 

A maior seca dos últimos 60 anos continuará castigando Ivani Oilda de Moura, 50, no primeiro trimestre de 2017. Moradora do assentamento Curralinho dos Angicos, zona rural do município de Floresta, viverá, como tantos outros sertanejos, mais um período de chuvas abaixo da média histórica. É o que prevê a Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac), que aponta o ano de 2017 como menos severo que seu antecessor, mas, ainda assim, capaz de trazer profundos transtornos. Floresta é apenas um dos 126 municípios em estado de emergência por conta da seca, segundo a Casa Militar de Pernambuco. E nem chega a ser o pior dos cenários: 31 cidades já entraram em colapso de abastecimento, enquanto 37, estão em pré-colapso, de acordo com a Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa).

Nas cidades afetadas, a rotina de lamentações acaba naturalizada e se somará, mais uma vez, à angústia pela falta de chuva. O acumulado médio para o primeiro trimestre do ano no Sertão é pouco superior a 302 milímetros de chuva. Mas, segundo a Apac, ainda que não se possa afirmar ao certo quanto choverá, é certo que a região terá consideráveis milímetros a menos. “Quando afirmamos que as chuvas serão abaixo da média histórica, significa que choverá, no máximo, 20% menos que o habitual, nesse caso, uma quantidade igual ou menor a 240mm”, explica o meteorologista Roberto Pereira.

Ricardo Fernandes/DP

Isso significa que, entre janeiro e março, a altura da água da chuva acumulada em cada metro quadrado seria de 24 centímetros.
Para 2017, o cenário pessimista dá continuidade a um 2016 que deixou marcas. Apenas em 2016, 22 municípios entraram em colapso de abastecimento, o que afeta diretamente a vida de 323 mil pessoas em um total de 31 municípios. Em pré-colapso, quando ainda há abastecimento, mas com debilidades ou restrições por conta da pouca quantidade de água nos reservatórios, são outras 37 cidades e mais 1,1 milhão de pernambucanos.

Seca histórica

– Pernambuco enfrenta a maior seca dos últimos 60 anos

– O Agreste do estado sofre com a maior seca em um século

Marcas que ficam

– A caatinga afetada pela seca pode demorar até 100 anos para voltar ao seu normal
– Os animais tendem a migrar para escapar da morte gerada pela falta d’água
O cenário que se desenha não é otimista. A tendência é que seja um pouco melhor que o cenário vivido em 2016, mas ainda assim pior que a média histórica de chuvas na região
Roberto Pereira

Meteorologista da APAC

De acordo com o presidente da Compesa, Roberto Tavares, as antigas barragens de pequeno porte, que atendiam um ou dois municípios, agora abastecem muitos mais, levando à dependência dos carros-pipa. Além disso, alerta que, apesar da situação complicada no Sertão, sobretudo diante da escassez de chuvas no período, que deveria ser chuvoso, o Agreste é a região mais afetada e enfrenta a pior seca em um século. “No Agreste, são 50 cidades em colapso ou pré-colapso. Somente a barragem de Jucazinho – que secou – deixou de abastecer 15 municípios. É preciso que sejam realizadas obras estruturadoras, como a Adutora do Agreste e a Transposição do Rio São Francisco, que vão nos auxiliar a sair dessa situação”.

A Adutora do Agreste é uma obra federal que, pronta, garantiria abastecimento permanente a 12 milhões de pessoas, em 390 municípios de Pernambuco e outros três estados.

No entanto, ela sofre com a diminuição dos repasses federais. Com custo estimado em R$ 1,4 bilhão, até o momento, pouco mais de R$ 500 milhões foram repassados ao Governo do Estado.

O Ministério da Integração Nacional, após os ajustes fiscais do governo Michel Temer, garante repasses de R$ 10 milhões por mês, que devem ser focados em trechos conectados a adutoras menores.

Obras da Adutora do Agreste, em dezembro de 2016 Foto: Compesa/Divulgação
Annaclarice Almeida/DP

Enquanto as obras não saem do papel, a solução é a de sempre: racionar. “Continuamos extremamente preocupados pois a situação é gravíssima. Ser melhor que 2016 (em chuvas) não significa coisa boa. 2016 foi péssimo, trágico. Estamos em uma situação em que nem chuvas na média enchem as barragens, quanto mais as abaixo da média? Temos que seguir com o racionamento e até aumentá-lo”, justifica Roberto Tavares.

 

 

No limite da necessidade

Curralinho dos Angicos tem 50 casas e conta com dois poços, perfurados com pouco mais de 60 metros de profundidade. A água, quando há, chega nas torneiras fraca e por pouco tempo, por conta da vazão. “A gente queria fazer mais um poço, mas não foi possível. Até juntamos o dinheiro, mas nenhuma empresa quis fazer. Para eles, não vale a pena”, justifica. A solução então é o caminhão-pipa. Com R$ 40, conseguem até 9 mil litros de água retirados da Barragem de Barra do Juá, com capacidade para 75 milhões de metros cúbicos de água, mas também em colapso.

Ricardo Fernandes/DP

Até quando isso vai durar, Ivani não sabe. Só sabe que sem água não dá pra ficar. Em uma cirurgia de histerectomia, para remoção do útero, em um erro médico teve sua bexiga perfurada. No procedimento para correção da bexiga, teve o intestino também perfurado. Resultado: hoje usa fraldas para incontinência urinária e colostomia para coletar as fezes, em um pequeno saco que mantém na cintura, para evitar que o processo de excreção contamine os locais danificados do intestino. “Eu compro as fraldas, a gaze, as luvas, tudo com o auxílio-doença e com o dinheiro dos bicos que meu marido faz. Mas preciso estar sempre com água em casa. Sem água não dá para manter a higiene”.

 

 

 

 

Sem direito a otimismo por quase 15 anos

Os pernambucanos tendem a continuar olhando para o céu à espera dos milímetros escassos da chuva que não vem. Possibilidades realistas apontam para o predomínio da seca até o final da década de 2020, início de 2030.  O professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Ranyére Nóbrega destaca que vários estudos comprovam a existência de ciclos climáticos. São oscilações entre 15 e 20 anos de duração que variam entre períodos de chuva e seca.

“Não significa que em duas décadas teremos apenas seca, mas sim, a predominância. Tudo indica que estamos em meio a um ciclo de seca e ele pode durar até meados de 2030, 2031, já que o ciclo de seca que vivemos teve início em 2011”, afirma. Ele explica que antes do ciclo atual de seca, nós vivemos um período favorável climaticamente, que durou entre o final da década de 1990 e 2010. O problema, no entanto, é que a deterioração ocasionada pela falta de chuvas não leva o mesmo tempo para ser corrigida com a sua incidência. Os efeitos da seca perduram por muitos anos após a diminuição da sua intensidade.

Ricardo Fernandes/DP Barragem de Jucazinho entrou em colapso e atingiu o nível zero

“Uma seca de cinco anos como a vigente vai levar muito mais que isso para que seja superada. Chuvas acima da média por dois anos consecutivos podem ajudar na recuperação de barragens, mas há muito mais que isso. E o previsto para 2017 não é uma mudança de cenário, mas a continuação”, ressalta. O cenário, mesmo distante, que dialoga com uma vida digna para quem vive imerso na seca é o fim da dependência excessiva das chuvas. “Temos que ter a continuidade e conclusão de obras, como a transposição do São Francisco e a Adutora do Agreste, pois a situação é de extrema dificuldade e a água não virá por milagre”.

“Refluxo” da incerteza

A convivência com o chão rachado, o sumiço do verde e os ossos cada vez mais protuberantes do gado não faziam parte do cenário idealizado. Pessoas que vivenciam a crise hídrica em meio à crise econômica lembram de um cenário que, até poucos anos atrás, parecia favorável. Quem saiu do estado em busca de uma vida melhor vivenciou um país com baixos índices de desemprego, com a perspectiva de ver, finalmente, o Brasil engrenar. “Nesse período, meados da década de 2010, a seca dava uma trégua e as notícias vindas do Sertão e Agreste eram alentadoras. Diante da melhora econômica vivenciada na primeira década dos anos 2000 muitos nordestinos que saíram da região retornaram”, destaca o geógrafo Ranyére Nóbrega.

Poucos anos depois do fluxo migratório inverso, o pernambucano se depara com o retorno da seca, como há muito não era vista, somada a uma severa crise econômica. “É extremamente preocupante a situação dessas pessoas. Eu temo com o que pode acontecer com essa população formada por pessoas extremamente fragilizadas. Voltaram em um cenário que permitia ter perspectivas, mas agora elas somem na seca e na crise”.

A oscilação que vem do Pacífico

A Oscilação Decadal do Pacífico ou simplesmente ODP é um fenômeno climático responsável por mudanças climáticas duradouras. Se assemelha ao El Niño e La Niña, mas enquanto estes duram até 18 meses, o ODP pode durar até 20 anos. A oscilação é marcada por duas fases bem definidas. A chamada ODP positiva, traz a seca, enquanto a ODP negativa aumenta a umidade e gera a ocorrência de chuvas. Atualmente, vivemos uma ODP positiva. 
João Vitor Pascoal

João Vitor Pascoal

Repórter

João é repórter do Diario desde 2014. Após passagem por política, como estagiário, entrou para a equipe do CuriosaMente em 2015

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