Ciclista, eu? Todos os grupos de bike do Grande Recife para começar já

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Diariamente, grupos de ciclismo se juntam para redescobrir o Grande Recife coletivamente, fazendo uso de bicicletas em nome do lazer e da saúde

 

Quinta-feira é o dia para andar de bicicleta na Região Metropolitana do Recife. À noite, pelo menos sete grupos diferentes saem de bairros das Zonas Norte e Sul da capital e de cidades como Paulista e Jaboatão dos Guararapes para se exercitar sobre duas rodas. Os horários, quase sempre após a jornada de trabalho tradicional, quando o trânsito não é tão arriscado, são flexíveis. E a maior parte dos passeios tem participação gratuita.

Ao todo, são mais de 20 grupos de ciclismo espalhados pelo Grande Recife, com saídas em todos os dias da semana e com diferentes níveis de esforço e dificuldade. Os mais iniciantes, que já sabem equilibrar-se na magrela e conduzir a velocidades superiores a 18 km/h, podem percorrer uma distância de 18 km, enquanto o percurso dos praticantes mais avançados pode chegar aos 70 km, o equivalente a uma viagem do Recife a Goiana, por exemplo.

Se as distâncias de percurso variam, os destinos e rotas são ainda mais surpreendentes e diversificados. A escolha é feita de acordo com as condições do perímetro urbano. “Para traçar um roteiro é necessário levar alguns pontos em consideração, trânsito, protestos ou situações de risco de assalto, por exemplo”, explica Alcides Neto, líder do grupo CicloAdventure.

No caminho, em especial quando o percurso inclui trilhas, quem desafia os obstáculos pode se surpreender. “A bike me dá oportunidades imensas no dia a dia. É minha terapia”, comenta a designer de moda Viviane Ting. Vivi, como é chamada pelos colegas, começou a pedalar em um grupo e gostou tanto que passou a fazer cicloturismo, viajando para outras cidades e países só para curtir o esporte. Ela já passou pela Chapada da Diamantina e fez até mesmo uma viagem para a Europa, nunca esquecendo de levar uma bicicleta na mala.

 

Pedalar com os cicloativistas não é uma proposta cara. Entre os 24 principais grupos organizados da RMR, o valor máximo que se chega a pagar para juntar-se à aventura é de R$ 12. Justamente por isso, as iniciativas do gênero têm se multiplicado, motivando os líderes desses círculos a articularem a União de Ciclistas de Pernambuco (Ucipe). Ainda em fase de desenvolvimento, ela pretende representar os grupos em discussões sobre número e qualidade de ciclovias, ciclofaixas, bem como segurança dos praticantes. “Os números de assalto a bicicletas, por exemplo, são muito altos, não existe uma política em situação a venda das peças”, explica Alcides Neto.

Uma cidade em redescoberta da bicicleta

 

 

Imagine se a metade do bairro do Parnamirim utilizasse bicicletas como forma de locomoção diariamente. Se entre todos os modais possíveis, 3,7 mil pessoas priorizassem a bike para ir trabalhar, estudar ou passear. Este é o número de ciclistas estimado em apenas um cruzamento do bairro do Arruda, zona Norte do Recife, diariamente. A medição foi feita por membros da Associação Metropolitana de Ciclistas do Grande Recife (Ameciclo) no encontro da Avenida Professor José dos Anjos com a Avenida Beberibe e é apenas a ponta do iceberg na contagem de moradores que utilizam a bike para transporte ou diversão na cidade.

Pedalar na Região Metropolitana não é tarefa fácil. O alto risco de acidentes com outros veículos no perímetro urbano (o mais recente terminou com um ciclista atropelado por um caminhão na Avenida Abdias de Carvalho) e a insegurança de andar com valiosos instrumentos de locomoção em uma cidade marcada pela violência urbana são alguns dos obstáculos.

Em busca de auxiliar esses ciclistas, a Ameciclo começou a contar a movimentação do modal em pontos da cidade. Em dias esporádicos da semana, pesquisadores vão até a uma avenida previamente escolhida e fazem a contagem das 6h às 20h. Todos os dados são publicados em um estudo e transformam-se em placas pela cidade, como explica Roderick Jordão, coordenador de comunicação da associação. “A gente sabe que, no Recife, cerca de 10% das pessoas usam bicicleta como transporte e queremos que elas pedalem em uma estrutura segura”.

Quem não sabe aprende

 

 

Apesar de não existir nenhum dado oficial sobre a quantidade de brasileiros incapazes de andar de bicicleta, há quem garanta que o número aumentou nas últimas décadas. O avanço de aparatos tecnológicos e a ocupação das vias por cada vez mais construções e veículos – diminuindo não apenas a quantidade de praticantes, o espaço disponível para a prática – são algumas das causas comumente apontadas para isso. No Recife, porém, qualquer um pode treinar gratuitamente com a ajuda de voluntários.

A cada último domingo do mês. O Bike Anjo, projeto de escala nacional, ajuda pessoas de qualquer idade a aprender a equilibrar-se nas duas rodas, com a Escola Bike Anjo (EBA), na Praça da República, Centro do Recife. “Não tem uma fórmula mágica. A gente vai se adequando às pessoas de acordo com a idade, tamanho e peso”, afirma Enio Paipa, um dos voluntários.

Como acontece em todas as regiões do Brasil, as aulas são gratuitas e pessoas de qualquer idade podem participar do projeto. Um dos símbolos dessa inclusão é dona Joselita, que, aos 93 anos, resolver vencer o medo e arriscar-se em cima de uma magrela com o auxílio de dois voluntários, em São Paulo. “Ensinamos pessoas dos zero aos 100 anos”, brinca Enio.

De preferência, o interessado deve ter uma bicicleta, mas o grupo também disponibiliza, no local, bicicletas próprias para uso de quem busca aprender mas não dispõe do equipamento. Para financiar a atividade e a manutenção das bikes, nos encontros, o grupo também vende camisas, copos e outros objetos, além de receber doações de apoiadores pelo site bikeanjo.org.

Número de bicicletas nos principais cruzamentos do Recife

(Registros realizados entre 6h e 20h, pela Ameciclo)

Av. Beberibe x Av. Professor José dos Anjos

Av do Forte x R. Dr. Miguel Ferreira Vieira

Estrada do Arraial x Rua Padre Lemos

R. Arquiteto Luiz Nunes x Av. Engenheiro Alves de Souza

Estrada de Belém x R. Odorico Mendes e R. Jerônimo Vilela

Av. Rui Barbosa x Rua Amélia

Av. Mascarenhas de Morais x Av. Engenheiro Alves de Souza

Atividade cresce, mas medo ainda é rotina

 

Além do risco de ser atropelado por um automóvel, a violência é outra grande preocupação de quem anda de bike. Nos seis primeiros meses de 2016, 138 bicicletas foram roubadas na RMR, de acordo com dados da Secretaria de Defesa Social (SDS), um aumento de 46% em relação a 2015, quando os registros de roubos e furtos de bicicletas ficaram em 93 ocorrências.

Os modelos cada vez mais modernos e a facilidade de desmontar as magrelas para vendê-las “em partes” tornam as bicicletas mais visadas e os passeios mais inseguros. Menos de 30 minutos foram necessários para que o administrador Diego Pereira tivesse sua bicicleta, uma Caloi Urb, furtada na Avenida Conde da Boa Vista. “Deixei ela amarrada em um poste para pagar uma conta no shopping e quando voltei, não estava mais lá, ninguém tinha visto nada”, lembra. Como não prestou boletim de ocorrência, o caso de Diego é apenas um entre os incontáveis relatos que não entram nos registros da SDS.

A farmacêutica Silvana Gonçalves vive com a tensão de passar por possíveis assaltos enquanto pedala semanalmente. Apesar do grupo coordenado por ela ser voltado apenas para mulheres, na Zona Sul do Recife, ela não dispensa a companhia de filhos ou maridos das integrantes nos passeios e garante que a presença deles conta como um ponto a mais para aliviar a sensação de insegurança. “Já pensamos até em chamar policiais para acompanhar o grupo”, comenta.

Abertura Progressiva

Em agosto deste ano Recife ganhou o primeiro suporte para bicicletas em um ônibus da linha Parque Capibaribe/TI TIP. Alguns meses antes, em novembro de 2015, o metrô do Recife – que já permitia a entrada de bicicletas a partir das 14h dos domingos – deixou os usuários entrarem nas estações em vagões com as bikes todos os dias da semana, a partir das 20h30.

O fotógrafo Pedro Cury, já era dono de um site sobre pedal quando, pensando na quantidade de assaltos a bicicletas no Brasil, resolveu criar a plataforma BicicletasRoubadas.com.br, em 2001. Nela, qualquer pessoa pode ajudar a mapear as ruas mais perigosas para ciclistas. “O mais importante é o número de série da bicicleta, mas é claro que nenhum dado é obrigatório. É melhor saber que tem um roubo naquela região do que não saber nada sobre isso. Já fizemos parcerias com algumas delegacias no Rio de Janeiro e uma menina que teve a bicicleta roubada conseguiu recuperar em menos de 10 dias”, garante Cury, apontando Rio e São Paulo como principais origens de tráfego no site. No ranking de registros na aplicação, disponível em 2016, o Recife em 10° lugar entre as capitais brasileiras até o momento.

Lorena Barros

Lorena Barros

Repórter

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