Cena Drag pernambucana ganha força através de projetos inovadores

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Maquiagem, roupa, peruca e personalidade. Esse último requisito é o único que não pode faltar quando o assunto são as drag queens. Conhecidas pela extravagância na aparência, nas ações e até no vocabulário, elas têm conquistado e criado cada vez mais espaço para mostrar suas performances na cena artística pernambucana. Através de projetos inovadores, ganham visibilidade e força diante do preconceito ainda presente. Além disso, acabam criando um novo mercado, resultando novos empregos no ramo e um show de representatividade do público LGBT.

Para desconstruir a imagem ultrapassada que as pessoas ainda tem, sobre aqueles que se “montam” e se transformam em drags, o fotógrafo Fernando Cysneiros deu início a um projeto inovador – não só em Pernambuco, mas no país – e criou o The Drag Series. Acostumado com o ritmo das passarelas, fotografando modelos durante as “Fashion Weeks” de São Paulo, Vancouver e Paris, decidiu que era hora de fazer diferente e virar seu olhar para o público LGBT.

Começando por sua cidade natal, Recife, Fernando resolveu fotografar alguns amigos que já faziam trabalhos e eventos como drag queens. A escolha para o estilo visual das fotos foi o mais simples e transparente possível: apenas um fundo branco. “O fundo totalmente branco funciona como uma tela, eu dou a liberdade pra elas construírem sua própria arte e montarem a mensagem que vai ser passada para o público através da fotografia”, explica.

Apenas quatro meses após a primeira foto publicada no Instagram oficial do projeto, começou a expansão para outros estados e cidades do Brasil. Hoje em dia, o Drag Series conta com fotos de 89 drags, de oito diferentes estados brasileiros e até de outros países, como Estados Unidos e Chile.  Fernando conta que aproveitou algumas viagens que fez a lazer, para fotografar novas modelos para sua proposta, mas já realiza viagens exclusivas para dar seguimento ao projeto. “Eu criei uma espécie de formulário, onde as drags podem se inscrever e me passar seus dados e principalmente sua localização. Através dessas informações eu consigo montar um plano de trabalho e aproveitar todas as minhas viagens – seja a lazer ou a trabalho – pra me dedicar ao projeto”, conta.

Uma das pessoas convidadas para fazer parte do trabalho fotográfico, foi Murilo Araújo, que adotou a identidade de Alexia Tarantino. Hoje aos 30 anos, começou a se interessar pelo mundo drag desde 2008. Na ocasião, já tinha amigos que se montavam e uma vez decidiu arriscar. “Eu me vesti pela primeira vez e achei muito estranho. Olhei no espelho e era outra pessoa”, relembra.

Depois de algum tempo Murilo decidiu quebrar os padrões estabelecidos pela sociedade e resolveu se transformar de vez em Alexia. Ele conta que foi uma forma de revolução em si mesmo, que precisava quebrar paradigmas. “Eu precisava fazer isso. Foi um tipo de protesto a um protesto. Eu me transformei em uma figura pública e comecei a entender um pouco da arte de realmente ser uma drag queen”.

Daniel Cardoso, que dá vida à Dhalia Mayfair, foi mais um a ser fotografado. Formado em artes visuais, Daniel tem 23 anos e, ao contrário de Murilo, já era acostumado a vestir roupas diferentes e interpretar personagens desde muito cedo.

Impulsionado pelo plano de fundo da faculdade que frequentava, durante a disciplina de Expressão Visual, percebeu que ser drag era sua sina. “Eu comecei a vencer um preconceito que eu mesmo tinha. Depois que me acostumei a me vestir como Drag Queen eu percebi que é muito mais do que fazer uma comédia escrachada ou um mero entretenimento”, conta.

Além da parte artística da personagem, Daniel quebrou seus próprios paradigmas, e passou a se aceitar mais e de uma vez por todas.

Negro e homossexual, afirma que a  autoaceitação foi crucial para viver de bem com aquilo que aprendeu a fazer de melhor. “Eu comecei a me amar mais. Aceitei minha cor e meu cabelo. Acredito que por ser negro eu tive que amadurecer mais rápido por conta da sociedade, e isso me ajudou a partir do momento que decidi o que eu queria. Hoje sou muito feliz por ter me descoberto drag”, explica.

Calote dá origem ao sucesso


Outro projeto que tem tomado conta da internet, dando visibilidade às drags, é o canal no Youtube DragrTV. Idealizado pelo recifense Murilo Carvalho, estudante de engenharia florestal, o canal foi criado após um acontecimento não muito feliz. Uma festa voltada ao público LGBT contratou várias drags e, após o evento, o cachê acertado entre a produtora e as performistas não foi pago. 

Da indignação, Murilo tirou o incentivo de criar um grupo para debater como poderia se dar visibilidade e respeito à cena drag pernambucana. Em 27 agosto de 2015 foi publicado o primeiro vídeo do canal. O sucesso expandiu o projeto, tornando o DragrTV um canal com vários programas, voltados para o zodíaco, performances, debates, entrevistas e coberturas de festas na área metropolitana do Recife.

Murilo conta que a maior inspiração do mundo drag é o seriado Ru Paul’s Drag Race, exibido pelo canal norte-americano VH1. Ru Paul Andre Charles é um ator, modelo e apresentador, de 56 anos, que passa maior parte do seu tempo como Drag Queen. Apesar da distante inspiração, tanto ele como o programa são as fontes iniciais pra quem deseja seguir este caminho. Porém, o canal tem como um dos objetivos de diminuir a distância entre as pessoas e suas fontes de inspiração. “O canal despertou a sede drag do Recife. Quando você toma alguém como inspiração e ela vive muito longe da sua realidade é mais difícil. No canal você se inspira em pessoas que você encontra nas festas, nos shoppings e a realidade se torna muito mais viável. E isso é muito importante pra cena estadual”, explica.

Pedro Carneiro, estudante de arquitetura e urbanismo, dá vida a Lara Beckney e teve um programa com dez episódios falando sobre o zodíaco no canal do DragrTV. Além de falar sobre signos e ascendentes ele também tentava conscientizar as pessoas sobre o mundo drag e a realidade das pessoas por baixo da maquiagem.

“Eu gostava de dançar e participar de apresentações no colégio desde pequeno e isso me ajudou muito ao entrar nesse mundo. Mas, nem todo mundo é assim, tem muita gente que precisa de um empurrãozinho pra poder desconstruir algum tipo de preconceito ou de trava pessoal”, explica Peu.

Cena drag pernambucana em ascensão

A cena drag pernambucana teve um explosão do ano de 2012 e de lá pra cá só tem crescido ainda mais. Ana Valéria Petrovna é mestra em antropologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e sua dissertação abordou o movimento drag, não apenas no grupo LGBT. Ela conta que além de encorajar os jovens a se encontrarem nesse novo mundo, o “boom” também foi responsável por gerar outros tipos de serviços. “As pessoas começaram a abrir as portas para outras oportunidades como, por exemplo, um mercado audiovisual voltado apenas para cobertura de festas, produção de conteúdo, revenda de maquiagem e perucas através de e-commerce, entre outras coisas”, explica Ana Valéria.

Drag Queen é uma expressão artística que pode ser exercida por qualquer pessoa, não necessariamente dentro do grupo LGBT. Atualmente, tem na casa de festas Metrópole, no bairro da Boa Vista, o grande ponto de concentração. Ana também explica que essa maior adesão do público ao mundo drag é recente, mas já existia muito antes do seriado de Ru Pau’ls. “A gente vê por aí a maioria do público entre 23 e 30 anos. Mas, não podemos esquecer que tem drags que já exercem a função por pelo menos 15 anos. Não é uma coisa só de agora”, diz.

Tanto o projeto fotográfico de Fernando, quanto o canal no YouTube criado por Murilo, ajudaram a dar mais destaque para a cena pernambucana. Cada vez mais, aspirantes a drags estão se descobrindo e aceitando isso mais como forma de arte do que algo voltado apenas ao entretenimento. Com suas particularidades, se descobrem e podem ocupar seu espaço no cenário drag local. 

Fotos por Fernando Cysneiros

Eduarda Bagesteiro

Eduarda Bagesteiro

Repórter

Eduarda é estudante da Universidade Católica de Pernambuco e estagiária do Diario desde março.

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