Cegos e economicamente ativos: os obstáculos para conquistar o mercado vai muito além do (não) poder enxergar

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Da proteção excessiva, que silencia uma ideia de incapacidade, ao preconceito do desinteresse, pessoas com deficiência experimentam do céu ao inferno na luta por espaço profissional

 

Quando entrou pela primeira vez em uma repartição pública como funcionária, Michelle Alheiros, de 41 anos, parecia de vidro. Não a deixavam fazer quase nada, mesmo com mais de 30 anos de vida. “Tinha muito tempo ocioso. Chegaram a me perguntar se eu conseguia subir a escada”, lembra. Já estava acostumada, seja trabalhando como vendedora, telefonista ou analista de educação. A superproteção era sempre o primeiro obstáculo a enfrentar como deficiente visual. O cuidado excessivo das pessoas era inversamente proporcional à falta de estrutura de cada uma das instituições: programas de computação adaptados custavam caro e quase nenhuma máquina imprimia em braille. Para lutar contra isso, usava palavras como arma. “Embora eu tivesse certeza de que não estavam fazendo por mal, deixava claro que não estava bem com aquilo. Dizia ‘sou uma pessoa produtiva, só preciso de ajuda e posso dizer como me ajudar’”, lembra.

Hoje, dez anos depois, a situação é bem diferente: o notebook adaptado foi dado pela instituição e o ambiente é acessível para além do espaço físico. É como se a presença de Michelle adaptasse cada um dos funcionários por dentro: pelas salas onde passou, além dos elogios à dedicação e bom humor, costumes imperceptíveis para quem nunca teve como colega uma pessoa cega são notados. Quando qualquer disposição de móveis ou computadores é mudada, a chamam para reconhecer a área; se entra em um dos ambientes repletos de livros, cadeiras e funcionários, logo avisam quem está ali. Quando estão silenciosos e focados no trabalho, a analista reconhece pela voz e até mesmo pelo toque. Em alguns dias, só o abraço da colega Conceição é necessário para que saiba quem está no mesmo ambiente dela. A “fiel companheira”, inclusive, não se cansa de contar o quanto aprende com a colega, sempre “muito mais desenrolada”. “Elas dizem que sou a que enxerga melhor”, conta.

milhões de pessoas são deficientes visuais no Brasil

milhões de pessoas são deficientes visuais no mundo

Por mais de um ano, o trabalho da analista em gestão educacional era fazer visitas periódicas em escolas do Recife para analisar questões de acessibilidade. A atividade era dividida com as consultorias em audiodescrição e aulas como professora braillista, multitarefa adquirida pelo desejo da independência, iniciado aos 19 anos com a venda de produtos de beleza e chegou ao ápice quando se tornou uma mulher concursada. “Sempre tive desejo de trabalhar”, lembra. Palestrando em salas de aula, incentivou não só alunos e pais, mexeu com a vida até mesmo da diretora. “É muito bonito dizer que a educação é para todos, mas qual educação é essa se você não consegue nem se comunicar com uma pessoa surda?”, questiona Jane Gomes. A funcionária pública dirigia o local na época das visitas da analista e, inspirada pelas palestras de Michelle, decidiu fazer cursos de especialização em libras e braille.

Quem entende de inclusão social garante: o cuidado excessivo e reação de estranheza quando um deficiente visual faz algo “normal” muitas vezes é um obstáculo no ambiente de trabalho. “Tem gente que age como se fosse sobrenatural quando pessoas com deficiência realizam ações mínimas. Isso é reflexo da pouca oportunidade em conviver com elas”, afirma José Carlos Amaral, servidor do Instituto Federal de Pernambuco (IFPE). Também deficiente visual, ele foi o responsável por ministrar aulas de braile e tiflologia (estudo voltado a instruir pessoas cegas) disponibilizadas gratuitamente pela instituição em duas edições. As turmas formaram 30 alunos, todos sem deficiência, para trabalhar com quem não enxerga. Além de professor no IFPE, José Carlos trabalha dando aulas de educação física, levando os exemplos da própria vida para sala de aula. “O nível de autonomia quase sempre depende das oportunidades. É essencial que pessoas interessadas nessa área possam receber aulas assim. Desse jeito o mundo fica mais fácil para quem não enxerga”, explica o professor.

Um mercado

trazido à luz

 

 

 

Não há motivação, porém, que compita com o estigma levantado por alguns de que contratar uma pessoa deficiente traz custos exacerbados para empresas. Somada à ideia de cegos como pessoas “mais preguiçosas” por poderem se aposentar mais cedo (ou, em alguns casos, terem direito a benefícios antes de trabalhar), o papel do deficiente visual no mercado de trabalho é apagado, precisando da ajuda de instituições de apoio para resistir. “Infelizmente, muitas gestões pensam que pessoas assim serão um peso, um custo adicional à empresa, mas eles estão prontos para o trabalho na medida em que as oportunidades surgem”, explica Roberto José da Silva, pessoa com deficiência visual e um dos diretores da Associação Pernambucana de
Cegos (Apec).

Para estimular pessoas como ele a entrar no mercado de trabalho, a Apec investe em uma série de cursos profissionalizantes. O mais recente formou uma turma de massoterapeutas. “A massoterapia é um dos pilares da associação, mas também trabalhamos com informática, administração e outros cursos, até mesmo para lidar com pessoas com deficiência”, conta. Entre o assistencialismo exacerbado e o desamparo, a experiência de funcionários cegos ou com baixa visão provam, no papel de aprendizes ou especialistas é uníssona: a oportunidade e convívio são fatores-chave para ultrapassar desafios impostos pela falta de acessibilidade hoje. O obstáculo a ser pulado agora é não ser necessária a presença de um colega de sala cego para que haja adaptação. Em um país com 6,5 milhões de deficientes visuais, a acessibilidade poderia ser aprendida desde cedo.

Lorena Barros

Lorena Barros

Repórter

Lorena é jornalista formada pela Universidade Federal de Pernambuco. Integra a equipe do CuriosaMente desde maio de 2016.

Rafael Martins

Rafael Martins

Fotógafo

Rafael é fotógrafo do Diario de Pernambuco

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