Casa de Banhos: uma história de 14 décadas no Recife

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No século 19, uma das tradições europeias consistia em tomar banho de mar em balneários, costume que foi importado para o Recife. Um dos famosos pontos da capital pernambucana ficava em cima dos arrecifes próximo a antiga Ponte Giratória, no Bairro do Recife. O local alcançou o sucesso por oferecer banhos considerados medicinais. Hoje histórico, o terreno ocupado pela antiga Casa de Banhos do Recife se resume a um acesso escondido para o mar e a uma placa que conta um pouco da história do estabelecimento comercial. O nome acabou sendo reutilizado, nos dias atuais, evocando a histórias do local.

A vocação original da área seria a de servir como uma residência, autorizado pelo governo da província, a pedido do comerciante Carlos José de Medeiros. A ideia dele era viver com a família próximo ao encontro do rio com o mar. Anos depois, ele resolveu transformar a residência em hospedaria com fins medicinais. Inaugurada em outubro de 1880, chamando-se Grande Estabelecimento Balneário de Pernambuco, porém os recifenses preferiram chamá-la de “Casa de Banhos”.

De acordo com a historiadora Rita de Cássia Araújo, o contexto da época era que as cidades europeias estavam entrando na modernidade e urbanização e as cidades brasileiras estavam seguindo o mesmo caminho, como no caso do Recife. As pessoas estavam começando a sentir-se livres porque antes não havia costume de banhos de mar no Recife, somente em Olinda. “Ela começa a fornecer banho de mar como questão medicinal e não como diversão. Recomendava como dose de remédio, porém a população vai ultrapassando horários de banhos. Então, se tem, de um lado, o banho de mar recomendado, e, de outro, um outro padrão da modernidade com vida ao ar livre”, explica.

O professor de Turismo da Universidade Federal de Pernambuco Fernando Guerra conta que só frequentavam o local famílias de posses porque para ter acesso aos banhos era preciso pagar. Ele afirma que o espaço foi importante para a história do turismo. “O local tinha sua importância porque era um produto higiênico, já que a higiene era precária na época. Só que, infelizmente, o governo não fez o necessário para preservar”.

A Casa possuía três piscinas acimentadas, duas voltadas para o Oceano e outra, para a cidade. O ingresso para os banhos custavam quinhentos réis (avulso) e dez mil réis (mensalistas), incluindo a passagem de ida e volta num bote. Se uma família inteira, com mais de cinco membros, tomasse banho, havia desconto de 20% em cada assinaturas. Quem não tivesse os trajes e fosse assinante poderia alugar por 300 réis (500 réis para não assinantes). Ainda havia quem possuísse roupa de banho própria, que a empresa cuidava de seu trato e conservação, ao preço de 2$000 mensais.

Segundo o livro As praias e os dias: história social das praias do Recife e de Olinda de Rita de Cássia, o terreno para a construção da casa foi cedido pela Marinha, mas possuía algumas exigências contratuais. “Além de estabelecer um serviço de botes para transportar os banhistas de um a outro ponto, o negociante ficava obrigado a manter no estabelecimento ‘pessoa apta para dar banhos às crianças ou adultos que pelo seu estado de debilidade precisassem ser auxiliados'”.

Após reformas no estabelecimento,  havia 5 banheiros que permitiam o uso de banhos a 350 pessoas ao mesmo tempo, 102 compartimentos próprios para o toalete dos banhistas e hóspedes do estabelecimento, 1 salão grande salão para refeições, com regular serviço de mesa, 2 salas e 1 gabinete de leituras, entre outras dependências.

A empresa prezava pelo comportamento familiar dentro do espaço, tanto que o artigo 19º dizia que “Qualquer pessoa que por palavras ou gestos ofender o decoro ou faltar ao respeito devido às famílias, será imediatamente despedida, e perderá a importância de seu ingresso ou assinatura.”

Ainda de acordo com o livro, uma lei foi criada para prorrogar o contrato do governo do estado e Carlos José de Medeiros por mais 15 anos. A Lei nº 379, de 16 de junho de 1899, também estabelecia que o local fornecesse banhos salgados gratuitos aos doentes da Santa Casa de Misericórdia, que necessitassem fazer uso dessa terapia.

No dia 1 julho de 1924, um incêndio de grandes proporções atingiu a Casa de Banhos. Nesta época, ela pertencia ao inglês Sidney Rodhes, gerente da Wilsons Sons & Cia. Apesar de reconstruída após o incêndio e voltar a funcionar no mesmo ano, ela não atraiu mais o público.

Segundo Rita de Cássia Araújo, a época em que a Casa sofreu o incêndio coincide com a construção da Avenida Boa Viagem. “Os banhos de mar já tinham se consolidado como espaço de lazer e elegância e o balneário já possuía serviços de telefones e ônibus”, comenta.

Atualmente, próxima a antiga Casa de Banhos tem uma placa, mal conservada, resumindo a história do espaço e pedaços de concreto onde existia a piscina.

Próximo ao local onde existia a Casa de Banhos, funciona um restaurante de mesmo nome, localizado dentro de um espaço que pertence ao Pernambuco Iate Clube, clube de velejadores.

O acesso ao restaurante pode ser feito por uma travessia de barco saindo do Marco Zero ou pelo Pina, passando por Brasília Teimosa. Inicialmente, o restaurante era voltado somente para os sócios do Clube. Após alguns anos, o local foi aberto ao público, mas ainda mantém o espaço dividido entre os sócios e o público no geral.

Ele foi inaugurado em 1997, sendo administrado por Ana Cristina de Azevedo e Armando Costa Filho. Em 2015, Ana Cristina faleceu e a administração passou para o sobrinho, Renato Azevedo, 32. “Ela não queria fechar. Hoje quem não quer fechar sou eu. Quero levar a memória dela por muitos anos”. Ele investe em serviço para capitalizar numa região com vocação natural para representar a memória do Recife.

João Velozo/Esp.DP

No cardápio do restaurante há frutos do mar, petiscos e outros alimentos, como a cartola. O restaurante funciona de terça-feira a domingo, este último, dia de maior movimento. A casa fica aberta das 11h às 17h.

Daniele Alves

Daniele Alves

Repórter

Daniele é estudante de jornalismo na Aeso – Faculdades Integradas Barros Melo. Escreve para o projeto CuriosaMente, da equipe de dados do jornal. É novinha demais para ter ido à Casa de Banhos original, mas já esteve no local para conferir o que restou da história…

João Velozo

João Velozo

Fotógrafo

João é estagiário da equipe de fotografia do Diario de Pernambuco. Até que gosta de banhos…

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