Boa Viagem esconde a menor ocupação residencial do Recife

Cerca de 50 famílias instalaram-se há um ano sob o Viaduto Tancredo Neves, em Boa Viagem, com o desafio de escaparem do aluguel cobrado nas favelas da capital

Por Marcionila Teixeira

 

Eles se auto-proclamam moradores da menor ocupação do Recife. Carecem de casas de alvenaria, com banheiros e móveis confortáveis. São fartos nas boas vindas aos forasteiros. Perto dali, o metrô da Avenida Sul passa ofertando um barulho ensurdecedor. Divide o ambiente com a música evangélica tocada o dia inteiro no barraco de Israel. Sob o Viaduto Presidente Tancredo Neves, que liga Boa Viagem à Imbiribeira, 50 famílias dividem o mesmo espaço desde o dia 7 de fevereiro do ano passado. Depois de um ano, a maior conquista da ocupação batizada de Tancredo Neves é, sem dúvida, a fuga do aluguel cobrado nas favelas dos arredores. Um barraco de dois vãos chega a custar até R$ 400. O maior desafio: manter a droga e o tráfico bem distantes do lugar.

A Tancredo Neves fica ao lado do Carrefour. Tornou-se passagem para funcionários da empresa com destino à Imbiribeira ao longo do dia. Na mesma época da ocupação, a direção do supermercado ergueu muros munidos de cercas pontiagudas na tentativa de separar-se da comunidade. Há cerca de oito meses, acrescentou portões pretos em dois trechos desse muro. A passagem é livre das 5h às 23h. Momento em que moradores e funcionários circulam no espaço, antes ocupado por mato e tomado por assaltos e produtos oriundos de roubo. Depois disso, o Carrefour fecha os portões e ao mesmo tempo o acesso dos habitantes da Tancredo para Boa Viagem. A única saída para os moradores é pela Imbiribeira.

“Questionamos os portões porque achamos que eles não podem fechar o viaduto, mas eles alegaram que estavam acontecendo roubos e uso de drogas. Como, se ninguém aqui tem essa prática? Depois, deixamos para lá porque pelo menos conseguimos ficar na área, não passamos mais por despejo”, comentou Cristiane Justino, 34 anos, líder comunitária da ocupação.

Por conta do portão, habitantes da comunidade que trabalham até tarde em Boa Viagem precisam pegar um ônibus para chegar à ocupação pelo lado da Imbiribeira. “Tem gente que trabalha até tarde em restaurante e poderia chegar andando se os portões estivessem abertos”, completou Cris, como é conhecida.

A ocupação resiste após cinco despejos. Alguns barracos não têm sequer telhas, apenas lona. Nos dias de chuva, a proteção é inócua. Estar dentro de casa é o mesmo que estar do lado de fora, dizem os moradores. Em um ano, dormiram ao relento, cozinharam em fogão à lenha, ajudaram-se uns aos outros, conseguiram um teto humilde, mas um teto. Parecem felizes com a espécie de casa própria conquistada a duras penas. Torcem para permanecer. “Agora não dá para crescer mais. Há quatro meses um pessoal ocupou o outro lado e se juntou a nós. Mas agora acabou o espaço”, pontua Cris.

O tráfico de drogas não é aceito na Tancredo Neves. Se alguém tenta se instalar, a comunidade reage, diz Cris. Os moradores, em sua maioria, são oriundos de favelas da Zona Sul, como a Pocotó, da Imbiribeira e até da Várzea. Gente fugada dos altos preços do aluguel praticados nas comunidades do Recife.

Em março de 2015, moradores procuraram a Companhia Estadual de Habitação e Obras (Cehab) para intermediar negociações sobre a área com a Prefeitura do Recife. Desde então, nenhuma decisão oficial foi tomada sobre a ocupação. O terreno pertenceria à Marinha, segundo os novos ocupantes, mas nem prefeitura, nem Cehab confirmam a informação. A PCR calcula, segundo dados do Censo 2010, 546 comunidades no Recife, com cerca de 817 mil moradores. Os dados, no entanto, estão desatualizados.

Marcionila Teixeira

Marcionila Teixeira

Repórter

Brenda Alcântara

Brenda Alcântara

Fotógrafa

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