Arquitetura de prédio mais verde do Parnamirim pode virar caso de Justiça

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Prédio Villa Mariana teria sofrido descaracterizações de projeto arquitetônico original, de 1976

De um lado, um artista tem sua obra alterada sem ser consultado. De outro, o dono da obra, que não consegue utilizá-la sem a alteração. É o caso de um prédio construído em 1976, no bairro do Parnamirim, Zona Norte do Recife, e que pode acabar na Justiça. Quem garante é o arquiteto Wandenkolk Tinoco, que projetou o edifício  Villa Mariana e afirma estar cansado de ver as obras arquitetônicas serem modificadas. Ele planeja edifícios há 57 anos e é conhecido por tentar trazer, para apartamentos, traços de casas, ao desenhar varandas repletas de verde, jardins e até quintais suspensos. Os moradores acham que as alterações não descaracterizam o edifício.

Para Wandenkolk, as alterações, que consistem na aplicação de vidros nos terraços, são inaceitáveis. “Os moradores estendem a sala, eliminando a varanda. Com isso, modificam uma peça que foi pensada como um todo e que faz parte da cidade de maneira harmoniosa. Já sofri diversos ‘atentados’ como esse. Os prédios que projetei foram mudando e hoje não cumprem mais a proposta pela qual são conhecidos”, conta o arquiteto. “O Villa Mariana já foi tema de mais de 20 teses de mestrado e doutorado, justamente pela proposta inédita.”

Por outro lado, os moradores que fecharam as varandas explicam que há um motivo funcional para a reforma. “O prédio tem 38 anos, uma rua sem saída virou uma grande avenida e o barulho se tornou insuportável. É impossível assistir à televisão ou ouvir uma música naquele ambiente. Por isso, vários moradores colocaram vidros. Não perdemos o diferencial do prédio, que é essa relação com a natureza”, explica o síndico Gracivaldo Santos, que mora no edifício desde que ele foi construído. “As pessoas têm opiniões divididas em relação ao vidro mudar ou não a fachada, já que o jardim se sobressai em um metro em todos os apartamentos.”

Terraço sem alteração do Villa Mariana. créditos: Isaac Azoubel/cortesia

A discussão da fachada é importante, porque o Villa Mariana é um imóvel especial de preservação (iep) há dez anos. De acordo com a diretora de preservação do patrimônio histórico e cultural do Recife, Lorena Veloso, uma inspeção no local poderá ser realizada, caso haja uma denúncia. “Não se pode mexer na fachada de um iep. Caso constatemos alterações, notificaremos a Secretaria de Mobilidade e Controle Urbano, que avaliará que atitudes tomará”, explica a arquiteta.

De acordo com o professor de direitos autorais da Faculdade de Direito do Recife Artur Stanford, o caso de Wandelkolk não só é válido, como também é muito promissor, principalmente porque há vários registros dos projetos e da construção original. “No Brasil não há cultura de direitos autorais. Há menos de cinco escritórios especializados aqui no Recife, e o tema só começou a crescer nos últimos cinco anos”, explica.

A obra de Wandenkolk tem um tema específico que remonta ao período em que concluiu a graduação em arquitetura, em 1958. “Na década seguinte, os prédios altos começaram a surgir com muita força. Eu me perguntava como as pessoas iriam se acostumar a morar naquilo. Saindo de uma casa com quintal, com cheiro de terra, com plantas, as pessoas precisavam daquilo por perto. Então tive a ideia de trazer para o apartamento esses elementos das casas”, lembra.

Inicialmente, Wandenkolk projetou edifícios em que cada apartamento teria um quintal. A proposta, contudo, onerava a construção, o que tirou o interesse das construtoras em suas obras. Com o tempo, o quintal se tornou um jardim e depois, uma varanda com um verde tímido.

Edifício Villa Mariana. Créditos: Fernando Diniz/divulgação

“Fui amesquinhando a ideia inicial para ser absorvido pelo mercado. Mas sabia: as pessoas aprendiam a morar em apartamentos, mas não aprendiam a viver neles. O Villa Mariana foi o prédio em que mais consegui realizar o que queria. É um edifício tropical, como todos deveriam ser. Acho horrível construírem prédios de Dubai no Recife.”

Wandenkolk Tinoco

arquiteto

Outras obras de Wandenkolk sofreram alterações para serem construídas e ao longo do tempo. O prédio da Fiepe (canto inferior direito), por exemplo, tinha jardins nos andares superiores. Créditos: Fernando Diniz e arquivo Wandenkolk.

A obra do arquiteto, além de assunto de teses acadêmicas, foi tema, em 2015, em um documentário curta-metragem. Dirigido pelo arquiteto Bruno Firmino, o filme foi lançado no 17º FestCine – Festival de Curtas de Pernambuco, no Cinema São Luiz. No segundo semestre de 2016, estará disponível na internet.

Uma cidade longe de ser sustentável

Centros urbanos são grandes geradores de efeito estufa. Concentração de pessoas, grande emissão de CO² (em especial, graças aos meios de transportes), asfalto que impermeabiliza o solo e retém calor e a utilização de materiais que refletem e dobram a incidência solar são os principais fatores para isso, de acordo com a doutora em conforto ambiental da UFPE Fátima Furtado. Para ela, os prédios sustentáveis não são mais uma opção. “Algumas pessoas acreditam que não dá mais parar curar as alterações climáticas que o planeta causou. Outros acreditam que sim, se for trabalhando para isso, com sustentabilidade e reciclagem, por exemplo. Mas, como se recicla o calor? Os espaços verdes são necessários nesse sentido”, explica.

“Espaços verdes, em especial as arbóreas, podem ajudar a frear a influência do urbano na mudança do clima do planeta”, explica. “Mas as grandes cidades atuam justamente no caminho contrário, porque os arquitetos estão mais ligados ao poder econômico dos clientes que à sobrevivência da sociedade e isso é uma sandice.” Como resultado, arquitetos doutores em conforto ambiental, como Fátima e Ruskin Freitas, afirmam que não há bons exemplos de edifícios verdes como o Villa Mariana no Recife e que é preciso haver uma fiscalização para que os prédios sigam a razoável legislação relacionada à sustentabilidade. “Em vez de plantar espaços que amenizem o gás carbônico que emitimos, os prédios são erguidos em vidro, potencializando a luz do sol”, defende Freitas.

Prédios com plantas e árvores:

Sol e Chuva

As plantas diminuem a incidência solar em superfícies que retém calor e refletem luz, além de absorver a água das chuvas, evitando alagamentos.

Ventos

Plantas como as palmeiras das jardineiras do Villa Mariana ajudam a canalizar os ventos, um dos fatores que ajudam a diminuir a temperatura local.

Energia Elétrica

Diminuindo o calor interno, o uso do ar-condicionado torna-se supérfluo. Desligado, não gera calor para o lado de fora das residências.

Uns com tanto e outros…

Pessoas como Sueli Watts, 72, não moram em um prédio com uma jardineira de 30 metros como o Villa Mariana. Mas no seu apartamento na Tamarineira, sem locais reservados para o verde, ela construiu o seu próprio jardim. “Tenho uma casa em Gravatá, onde tenho uma horta e algumas plantas, mas não conseguiria ficar sem plantas no meu apartamento. Plantei palmeiras no pequeno jardim do prédio e, aqui, tenho plantas até do Zimbábue”, conta orgulhosa. As plantas estão na varanda e em toda a sala, e são a forma de Sueli estar em contato com a natureza quando não está em sua casa de campo.

Borboletas e pássaros estão sempre procurando a varanda de Sueli. De acordo com a bióloga e botânica Marcela Tomaz, porque os espaços verdes da cidade estão diminuindo. A pesquisadora estuda a natureza nas grandes cidades e acredita que os prédios propostos pro Wandenkolk podem ajudar também na manutenção da fauna do Recife. “Especialmente os prédios próximos aos parques e praças, onde borboletas, abelhas e pássaros estão concentrados”, conta.

Sueli Watts. créditos: Paulo Trigueiro/DP.
Paulo Trigueiro

Paulo Trigueiro

Repórter

Paulo é jornalista e psicólogo. Escreve para o Diario desde 2013 e integrou a equipe de dados do jornal no final de 2015. Não vive em prédio verde, mas é vizinho do Parque da Jaqueira, logo, admirador da natureza.

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