Um trem juntou Reinaldo e Luzinete, numa viagem que embarcam juntos, todo dia, por seis décadas

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Linha que ligava Agreste ao Recife “apresentou” octogenários que, apaixonados, colecionam histórias dignas de uma comédia romântica pernambucana

 

Em um vagão de trem, numa viagem que já nem se faz, entre São Caetano e Recife (numa “escala” em Caruaru), Reinaldo viu Luzinete pela primeira vez. “Ela era a mulher mais bonita que eu já tinha visto em toda a minha vida”, lembra ele, hoje com 89 anos. O ano era 1953. Hoje, 64 anos depois, Reinaldo Lessa e Maria Luzinete Pessoa carregam uma bagagem de vida que conta com cinco filhos, 12 netos e muitas histórias engraçadas para contar.

São Caetano, um município localizado a 148 km do Recife. Foi lá onde Reinaldo Lessa nasceu, no ano de 1928. Apesar de ter passado toda a sua infância no Agreste pernambucano, não demorou muito para trabalhar viajando pelas redondezas. Em 1952, virou repórter correspondente do Diario de Pernambuco, assumindo as pautas de cidades do Agreste no entorno de Caruaru. Numa dessas viagens, conheceu a mulher de sua vida. 

Maria Luzinete Pessoa, nasceu em Carpina, no ano de 1931. Com cinco anos, mudou-se com a família para Caruaru, onde viveu até a juventude. Como professora de línguas, lecionava português, inglês, francês e latim em duas escolas de Caruaru. Em uma viagem
para o Recife, para visitar alguns parentes, esbarrou – mal sabia ela que propositalmente – com Reinaldo. Esperto que sempre foi, escolheu um dos poucos assentos vazios para que a bela moça não sentasse sozinha durante a viagem. “Armadilha” pronta, bastou um
pedido de ajuda para colocar a mala no porta-bagagens e então, os dois passaram a viagem se conhecendo.

Maria Luzinete Pessoa, nasceu em Carpina, no ano de 1931. Com cinco anos, mudou-se com a família para Caruaru, onde viveu até a juventude. Como professora de línguas, lecionava português, inglês, francês e latim em duas escolas de Caruaru. Em uma viagem para o Recife, para visitar alguns parentes, esbarrou – mal sabia ela que propositalmente – com Reinaldo. Esperto que sempre foi, escolheu um dos poucos assentos vazios para que a bela moça não sentasse sozinha durante a viagem. “Armadilha” pronta, bastou um pedido de ajuda para colocar a mala no porta-bagagens e então, os dois passaram a viagem se conhecendo.

 

Thalyta Tavares / Esp. DP
Thalyta Tavares / Esp. DP

 

No dia seguinte, antes da moça retornar a Caruaru, Reinaldo apareceu na estação para “se despedir”. Arrumado e cheiroso, fingia estar ali por coincidência, passando na janela em que ela já estava instalada. Conversaram até a saída do trem, tempo bastante para o velho “aparece um dia em Caruaru”. Foi depois de apenas dois que lá estava ele, na capital do Agreste. O que ele não sabia é que, na região, Luzinete era “Maria da Conceição”. Coisa de promessa da mãe dela, quando a menina tinha apenas cinco anos. Coração batia forte e a agonia se fazia. 

“Eu perguntava pra todo mundo onde Luzinete morava e ninguém sabia me dizer. Ninguém conhecia. Comecei até a pensar que ela tinha inventado o nome por não estar interessada em mim. Porém, uma pessoa que era mais próxima da família percebeu quem eu estava procurando e me explicou a situação. Fui correndo para a casa dela”, conta.

Ali mesmo, o namoro engatou. A jovem o recebia em Caruaru duas vezes por semana, depois que ele enfrentava o ônibus conhecido como “sopa”, que vencia a distância de 40 minutos entre os dois, a menor das dificuldades daquele início de relacionamento. “Meu pai era muito rígido e mandava a mulher que trabalhava na minha casa nos acompanhar. Quando chegávamos a alguns metros da minha casa, onde eu  sabia que meu pai poderia estar olhando da janela, nós soltávamos as mãos”, lembra Luzinete. Juntinhos, só nos bailes que frequentavam em São Caetano. Se tivessem dez bailes no mês, em todos os dez o casal estaria presente.

Foi num desses bailes que experimentaram também a primeira crise. Ele, que adorava dançar, chamava a atenção das meninas da cidade e ela, enciumada, mandou uma carta para terminar o relacionamento. Típico roteiro de novela ou comédia romântica…

Thalyta Tavares / Esp. DP

“Eu nem li. Assim que abri a carta e vi as primeira palavras em fechei, coloquei no envelope e rasguei. Não quis saber. Não ia desistir assim tão fácil. A carta chegou em um dia e no outro eu já estava em Caruaru na porta da casa de Luzinete”, relembra, rindo. Nunca mais se separaram.

Em 15 de julho de 1956, às 17 horas, na antiga Catedral de Caruaru, se casaram. Com o primeiro namorado, Luzinete teve cinco filhos, três homens e duas mulheres – como sua avó, todos intercalados. No Recife, só chegaram em 1978, de onde não saíram mais. Hoje aposentados pelo estado, veem os frutos dessa união: dois engenheiros, uma arquiteta, uma terapeuta e um juiz, todos formados na UFPE, são o orgulho dos pais.

Thalyta Tavares / Esp. DP
Thalyta Tavares / Esp. DP

Os netos se multiplicaram. E ainda que cada um ocupe o coração do casal, ambos mantêm um no outro a companhia essencial para tudo na vida. Se Luzinete não está em casa, ele a espera para poderem comer juntos. O mesmo vale na hora de dormir. “Eu a espero para fazer tudo. Depois de 61 anos casados, não tem sentido fazer as coisas sem ela. Quando um dos meus filhos me chama para viajar, eles já sabem que eu só vou se Luzinete decidir que vai junto. Até mesmo se não for com o mesmo lençol, não conseguimos dormir. Já experimentamos cada um ter o seu, mas não deu certo”, conta, com um brilho nos olhos e sorriso largo ao falar da mulher.

Mais que casal, Reinaldo e Luzinete transparecem ser melhores amigos. Sempre com muito bom humor, um está sempre do lado do outro. Ela, com jeito “mandão”, vaidosa, causava risos em cada preocupação se aparecia bem nas fotos. Ele, com jeito de um moleque de 89 anos, se divertia. Juntos, enfrentam as dificuldades que vão aparecendo com o natural peso da idade. Católicos, acreditam que Deus os colocou na vida um do outro, há seis décadas: e no que depender deles, podem vir mais seis…

Eduarda Bagesteiro

Eduarda Bagesteiro

Repórter

Eduarda é estudante da Universidade Católica de Pernambuco. Escreve para o projeto de dados do Diario, o CuriosaMente, desde março de 2017. Gaúcha, gostar mais que chimarrão e churrasco, só uma bela história de amor para contar…

Thalyta Tavares

Thalyta Tavares

Fotógrafa

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