Pontos e monumentos do Recife escondem 400 anos de história desconhecida pela população

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Perímetro urbano da capital pernambucana envolve quatro séculos de história local e nacional mas padece de falta de interesse, atenção ou manutenção

 

O muro em que um dos principais nomes da história pernambucana foi fuzilado. A praça em que a cabeça do maior símbolo de resistência negra do Brasil Colônia foi exposta, após sua morte. A esquina em que um governador foi morto, fato que ajudou a desencadear a Revolução de 1930. Todos esses locais estão no Recife, mas passam despercebidos por muitos.

“Temos muita riqueza histórica, mas não estudamos a nossa própria história. Frei Caneca, por exemplo, foi um grande líder, um pensador de um Brasil livre, mas não é estudado profundamente”, aponta o doutor em História e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Severino Vicente.

A inovação ocorrida em solo recifense também pouco é lembrada. Aqui circulou o primeiro trem urbano da América Latina, pousou a aeronave que atravessou, pela primeira vez, o Oceano Atlântico e foi construído o primeiro jardim zoobotânico do Brasil.

Monumento a Frei Caneca Foto: Paulo Paiva/DP

“Pernambuco, por muito tempo, foi um lugar muito rico e importante. Com riquezas, você pode ser pioneiro. Aqui, tivemos também o primeiro curso de teologia e a primeira escola jurídica do Brasil”, enumera Vicente, que ainda ressalta a importância do primeiro povoado do país, em Igarassu, e a primeira grande vila brasileira: Olinda. “A história do Brasil começa no Nordeste. Enquanto aqui estamos com 500 e poucos anos, o resto do país fica na casa dos 400 e poucos. É natural que haja tanta riqueza histórica”, acrescenta.

Uma riqueza sem tamanho, longe de ser completamente explorada. “Isso é ruim do ponto de vista turístico, pois muitos locais não são bem sinalizados, não são bem divulgados. As pessoas passam por eles e não sabem que ali aconteceram eventos históricos”, afirma a doutora em História e professora da UFPE Isabel Guillen.

Monumento a Zumbi Foto: Alcione Ferreira/DP

Ela ressalta que Pernambuco e o Recife pecam por não exaltar muito da história que ocorreu na cidade, o que seria agravado quando a abordagem tem como tema a cultura negra.

“Recife tem 400 anos de escravidão e pouco se expõe sobre isso. Lugares de memória sobre a escravidão e a cultura negra ganham ainda menos destaque. Além da questão turística, há a questão da valorização da própria memória de um povo. É como se alguns períodos não existissem”, explica.

O doutor em história e professor da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) Flávio Cabral enxerga que, cada vez mais, há o risco de que o conhecimento sobre o passado histórico pernambucano fique restrito a quem dedica a vida a estudá-los.

“Pernambuco possui fatos históricos interessantíssimos, mas poucos conhecem, sobretudo no Recife. Acaba se tornando algo restrito ao meio acadêmico, que realmente vai atrás da história”, opina.

Para o professor, isso poderia ser minimizado por meio de ações na educação de base e em locais que, naturalmente, chamam a atenção das pessoas. “Falta um trato melhor da nossa história. Primeiro seria importante uma maior difusão da história local desde a escola. E até ações básicas, como identificar em placas de ruas quem é aquela pessoa que dá nome à via. É preciso manter a história viva”, enfatiza.

Alcione Ferreira/DP

O Recife pouco conhecido

João Vitor Pascoal

João Vitor Pascoal

Repórter

João Vitor é jornalista formado pela UFPE. Escreve para o Diario desde 2014, com passagem pela editoria de Política.

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