Como a espécie, símbolo da sustentabilidade, saiu da lista de ameaça de extinção

Por Ed Wanderley (reportagem e fotografia)

Do risco de desaparecer às telas de cinema mundiais, espécie teve “ajuda” e população triplicou em 30 anos. Saiba como contribuir

Cheiro de chuva, som de água corrente e pássaros comunicando-se à distância, um verde que samba junto aos olhos, trajando-se de diferentes tons em cada compasso dançado com a luz de um sol sempre presente e que promove um calor úmido a cozinhar até pensamentos. O pantanal sul-mato-grossense é uma experiência sinestésica. Troca-se cada centena de pombos e ratos de cinzas ambientes urbanos por um volume tão significativo quanto de jacarés, que, aqui, povoam “ruas” demarcadas apenas por margens de vegetais e pavimentadas, durante boa parte do ano, por rios inteiros. Nesse cenário, distante do imaginário popular do brasileiro comum, por três décadas, biólogos promovem a proteção de uma das mais carismáticas espécies nacionais, que dá cara e cor à luta contra a devastação dos recursos naturais: a arara-azul.

Miranda (MS)

Se foi por meio do impacto humano que a população da espécie Anodorhynchus hyacinthinus chegou a apenas 1,5 mil indivíduos na década de 1980, foi por meio do trabalho de quem priorizava reverter sua extinção que esse número atualmente chega a 5 mil, o bastante para que o animal esteja fora da lista de ameaçados de extinção desde 2014. Mas quem lê os números friamente pode não compreender a dimensão do desafio. Monogâmica, a arara-azul se mantém com a mesma parceria até a morte do “cônjuge” – e, por aqui, não há puladas de ninho. Some essa ideia ao fato de que em, quase a totalidade dos casos, apenas um filhote por ninhada sobrevive e que muitas famílias foram (e são) destruídas pelo tráfico de animais exóticos e o nível de dificuldade pode se revelar mais claramente residindo em galhos bem mais elevados.

Hoje, 57 fazendas da região pantaneira abrigam 741 ninhos, o suficiente para abrigar nada menos que 3 mil araras-azuis. Desses, houve um “suplemento” importante de 284 ninhos artificiais. São caixas de madeira, com área para movimentação e desova, protegidas por placas metálicas nas próprias árvores, de forma a reduzir o alcance de predadores, facilitando a reprodução das aves. Tanto os naturais quanto os artificiais, após o período de voo dos filhotes, quando a família de araras deixa o local para movimentar-se pelo pantanal propriamente dito, passam a ser utilizados por outras aves, incluindo tucanos e outras araras.

Poucas pessoas podem afirmar, sem medo de errar, que, de alguma forma, mudaram o mundo. A doutora em biologia Neiva Guedes faz parte desse seleto grupo. Foi após uma aula, ainda em 1989, quando ouviu do risco de extinção das araras que decidiu, de forma voluntária, explorar o Pantanal buscando conhecer os hábitos peculiares da espécie.

Como consequência dessa iniciativa, nasceu o Instituto Arara Azul, formaram-se gerações de biólogos conservacionistas e reproduziram-se alguns milhares de aves ao longo de quase três décadas. Maior nome no estudo da espécie em atividade no Brasil, foi dela a ideia da construção dos ninhos artificiais, hoje monitorados por pesquisadores e estudantes orientados por ela.

“A arara-azul tem uma diferença significativa: ela virou símbolo da proteção à natureza. Como é uma espécie mais ‘carismática’, é mais fácil trabalhar a consciência ao redor dela do que da onça, por exemplo, que, vez ou outra, abate o gado de um fazendeiro. Ela inspira cuidados não apenas para ela, mas para o ecossistema como um todo. Ainda acho precipitada a sua retirada da da lista de espécies ameaçadas, mas, de fato, a realidade da espécie já é outra”, explica.

No início do trabalho, era em um Bandeirante que Neiva desbravava as áreas alagadas e de mata no Pantanal. Passava relatórios de desempenho do veículo à Toyota, como forma de testar o carro em ambientes adversos. A parceria com a montadora cresceu e se mantém até hoje, inclusive com projetos de conservação hoje financiados pela Fundação Toyota do Brasil, mesmo depois da retirada da arara-azul da lista de espécies ameaçadas de extinção. “Apesar da conquista, que nos traz muito orgulho, entendemos que a inexistência de uma ação direta e planejada poderia significar o retorno da arara-azul para a lista”, defende Percival Maiante, presidente da fundação.

A espécie, no entanto, permanece na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), o que ainda representa um risco significativo.

Maior centro de biodiversidade do país, o Pantanal acabou beneficiado com as intervenções pensadas para a arara-azul. Com o crescimento da população e os ninhos disponíveis, outras espécies, como tucanos, araras vermelhas e canindé também voltaram à região e se multiplicaram, mesmo em centros urbanos – o que deu a Campo Grande, por exemplo, o título de “Cidade das araras”, uma demarcação de território pertencente a espécies da natureza, como, ali, sempre o foi; E nunca deveria deixar de ser.

Sobre o Pantanal

hectares é a área de Pantanal monitorada

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de seu território fica no MS e o restante, no MT

espécies de aves, borboletas, mamíferos e peixes catalogadas

Sobre a arara-azul

dias é o tempo para a arara voar do ninho

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dos ninhos são feitos em árvores manduvi

frutas servem de alimento para as araras: acuri e bocaiuva

Uma espécie que conta com sua ajuda

 

Desde 2013, o Centro de Sustentabilidade do Instituto Arara Azul promove expedições de observação da espécie na natureza e abre espaço para doações e apadrinhamento de ninhos. Os recursos arrecadados com as ações são convertidos em financiamento de pesquisas e manutenção do trabalho de estímulo ao desenvolvimento das aves.

No caso dos ninhos “adotados”, é possível fazê-lo por meio de serviço (publicidade) ou subsídios, no caso de empresas e pessoas físicas. Os “serviços” em questão são da ordem de divulgação do trabalho em si e são comumente prestados por pessoas famosas de várias áreas, de Ziraldo e Carlos Saldanha a Luan Santana e Chitãozinho e Xororó. Eles emprestam suas imagens para projetar a campanha de conscientização do projeto. No caso das doações realizadas pelos demais interessados, o Instituto oferece uma progressão de recompensas que incluem desde pequenos chaveiros até pelúcias e grandes fotografias emolduradas.

Ed Wanderley

Ed Wanderley

Repórter

Ed é repórter desde 2009 e escreve para o Diario desde março de 2010. Atua como editor do CuriosaMente. Escreve sobre direitos humanos, ciências e economia sustentável. Esteve em contato com araras de perto e descobriu que elas cheiram a leite de coco. Para esta reportagem, na qual também assina as fotos, viajou a convite da Fundação Toyota do Brasil.

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