O poder do voto evangélico

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A representatividade dos diversos segmentos da sociedade é um dos alicerces da democracia. Neste cenário, o nicho evangélico tem apresentado crescimento e potencial para aumentar a sua já considerável relevância política. Para 2018, a projeção – baseada no crescimento demográfico do IBGE – é que o Brasil tenha aproximadamente 55 milhões de evangélicos, dos quais, 38,6 milhões seriam eleitores – número equivalente, por exemplo, a 70% dos votos recebidos pela presidente afastada Dilma Rousseff (PT) quando eleita em 2014.

Trazendo os números para Pernambuco, em 2018 serão pouco mais de 1,6 milhão de eleitores evangélicos, que representariam 53,3% dos votos recebidos pelo governador Paulo Câmara (PSB) em 2014 e 61,5% do número obtido pelo senador eleito Fernando Bezerra Coelho (PSB).

Em outras palavras, em um cenário de aglutinação e convergência na hora do voto, as diversas denominações evangélicas podem vir a definir a representação política dos estados e do país.  “Em parte, é uma vantagem, mas temos a obrigação de fazer a diferença, mostrar que nosso comportamento é diferente”, pondera a vereadora Irmã Aimeé (PSB), da Assembleia de Deus, parte da bancada evangélica não oficial da Câmara recifense que, de acordo com ela, conta com “entre 8 e 11” dos 39 vereadores da capital pernambucana.

Nando Chiappetta/DP

 

Projetando cenários para os cargos legislativos em 2018, as bancadas evangélicas tendem a se consolidar, com capacidade de crescimento. Os 38,6 milhões de votos evangélicos poderiam, por exemplo, eleger os 237 deputados mais votados da Câmara em 2014 ou os 429 menos votados da Casa, de 513 parlamentares.

Poderiam também, aumentar significativamente a Frente Parlamentar Evangélica, hoje com oito entre os 49 deputados da Casa de Joaquim Nabuco. Isso porque o contingente eleitoral no estado equivale aos votos obtidos pelos 22 deputados estaduais mais votados – e aos 39 menos votados. E é no Legislativo, que a influência do grupo se faz mais significativa, já que nele, participa-se decisivamente da construção, aprovação e vetos de lei podendo levar em conta o ponto de vista defendido pelo segmento.

A bênção de voos mais altos

“O povo evangélico começou a ter consciência da importância de ter mais representantes no Legislativo”, afirma a vereadora Irmã Aimeé. “Os evangélicos, de modo geral, já foram alheios à política, mas é natural que busquem seus representantes assim como qualquer outro segmento”, concorda Pastor Eurico, segundo deputado federal mais votado do estado. Ele destaca, porém, que para uma representação no Executivo mais efetiva, ou seja, com um candidato evangélico se tornando prefeito, governador ou até mesmo presidente, o caminho seria muito mais complexo.

Ricardo Fernandes/DP

O também pastor Cleiton Collins, deputado estadual mais votado nas eleições de 2014 em Pernambuco, crê que a amplitude e abrangência para esse tipo de pleito é um fator determinante. “Ninguém votaria em um prefeito, por exemplo, porque ele é evangélico. Vota-se por capacidade, pela preocupação com a população de modo geral”.

No entanto, o deputado federal Anderson Ferreira (PMDB) diverge. Entende que é questão de tempo que a convergência do eleitorado evangélico resulte em uma vitória no Executivo.

“Bolsonaro (não se identifica publicamente como evangélico, apesar de recentemente batizado) aparecer com 8% das intenções de votos em uma pesquisa realizada dois anos antes das eleições é um indício. Na mesma pesquisa, Marina Silva, evangélica, aparece próximo ao topo nas intenções”, aponta. “Esse dia vai chegar – de haver um grande líder evangélico no país”, acrescenta.

Para o sociólogo Marcos Araújo, após um aumento na inserção no Legislativo e diante do crescimento de pautas conservadoras entre os eleitores, candidatos evangélicos se tornarão mais fortes em candidaturas também no Executivo já nas próximas eleições, em outubro de 2016, com potencial de crescimento para os pleitos seguintes. “Os prognósticos estatísticos dizem que em menos de duas décadas, o Brasil (em termos religiosos) deixará de ser um país de maioria cristã católica e se tornará um país de maioria cristã evangélica e isso certamente terá efeitos em todos os campos, inclusive político”, justifica.

Os “gospelstars” das urnas

De acordo com dados do último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010, o Brasil contava com pouco mais de 42 milhões de evangélicos, 22% da população. Desses, 1,8 milhão estão em Pernambuco, cuja população evangélica, de 20,3% do total, é semelhante à realidade nacional.

A mudança é considerável, tanto no país quando no estado, quando compara-se com a demografia registrada no Censo de 1991, quando apenas 12,5 milhões de brasileiros – sendo 486 mil pernambucanos – identificavam-se como evangélicos. Na época, representavam apenas 8% da população nacional e 6,8% da estadual. A mudança social impactou diretamente na política.

Se em 1991, a chamada “Bancada Evangélica” da Câmara Federal sequer era citada pelos dados do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), que destacava apenas um pastor entre os membros do parlamento, números de 2015 apontam 75 deputados na Frente Parlamentar Evangélica. Entre eles, estava, até pouco tempo atrás, a liderança da Câmara Federal, na figura do ex-presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), membro da Assembleia de Deus, que conseguiu contrapor-se ao governo desde o momento de sua candidatura, passando por propostas contrárias à Presidência da República, culminando com a condução do processo de impeachment de Dilma Rousseff, em abril deste ano.

À época, inclusive, o líder da bancada evangélica, João Campos (PRB-SP) indicava um contingente de deputados bem maior que o oficial, o que totalizariam 92 parlamentares – 18% do total. E, nessa conta, sequer incluía os conservadores que votam junto com a frente religiosa.

Já na Casa de Joaquim Nabuco, de acordo com dados fornecidos pela assessoria de comunicação da Assembleia Legislativa, em 1991, eram três deputados identificados com propostas do segmento evangélico. Na atual legislatura, são oito.

“É normal que a representatividade política siga o mesmo caminho da representação na sociedade. Isso faz parte do jogo democrático”, aponta o sociólogo Marcos Araújo. No estado, a relevância desse segmento é clara e significativa.

Ricardo Fernandes/DP

Dentre os cinco deputados estaduais mais votados nas eleições de 2014, três são evangélicos e somaram mais de 450 mil votos: Pastor Cleiton Collins, do PP (217 mil), Presbítero Adalto Santos, do PSB (159 mil) e André Ferreira, do PMDB (74 mil). Entre os federais, foram dois entre os líderes da eleição, com soma semelhante: Pastor Eurico, do PSB (233 mil) e Anderson Ferreira, do PR (150 mil). Voltando mais dois anos, nas últimas eleições municipais de 2012, a capital pernambucana colocou quatro evangélicos entre os 10 vereadores mais votados. Juntos, André Ferreira (PMDB) – deixou a Câmara em 2014 para se candidatar a deputado estadual -, Missionária Michele Collins (PP), Luiz Eustáquio (PSB) e Irmã Aimée (PSB) somaram mais de 46 mil votos.

O crescimento da população evangélica no país e em Pernambuco ocorre desde a década de 1970, com a proliferação das igrejas neopentecostais. Dessa forma, as igrejas passaram a investir na difusão midiática das suas doutrinas, do rádio, passando pela TV e chegando à internet e às redes sociais no século 21.

 

Nando Chiappetta/DP

“Essas ações permitiram que as igrejas evangélicas adentrassem de forma mais incisiva em comunidades carentes e nas classes médias urbanas, tendo como consequência o aumento de evangélicos no Brasil”, afirma o sociólogo Marcos Araújo, acrescentando, ainda, que a população evangélica acaba exercendo um papel de respeito e confiança, aproveitando a lacuna deixada pelo Estado.

Na prática, isso é traduzido em votos mesmo de “não-evangélicos”.

“Os evangélicos se preocupam com a sociedade como o todo. As vezes a Igreja chega onde o estado não chega, com um trabalho social muito forte. Trabalhamos com as pessoas à margem da sociedade”, justifica o Pastor Cleiton Collins, deputado estadual mais votados nas eleições de 2014 em Pernambuco.

A escalada de uma “linha mais conservadora”

Ao contrário de vários grupos políticos e sociais, evangélicos têm feito sua força valer nas urnas. A separação de política e religião é desfeita e, de acordo com especialistas, o discurso homogêneo em defesa de “valores morais semelhantes”, visando principalmente posições conservadores, batendo de frente com políticas públicas voltadas ao público LGBT, legalização de drogas e descriminalização do aborto, por exemplo, tende a ser fortalecido.

Tanto os evangélicos quanto os militantes cristãos entendem que precisam de representação. O segmento está mostrando a sua força

André Ferreira

Deputado Estadual

Ao contrário de vários grupos políticos e sociais, evangélicos têm feito sua força valer nas urnas. A separação de política e religião é desfeita e, de acordo com especialistas, o discurso homogêneo em defesa de “valores morais semelhantes”, visando principalmente posições conservadores, batendo de frente com políticas públicas voltadas ao público LGBT, legalização de drogas e descriminalização do aborto, por exemplo, tende a ser fortalecido.

O cientista político e professor da UFPE Michel Zaidan reitera que a “agenda de interesses da sociedade civil” pode estar em risco. “Enxergo uma escalada conservadora que, inclusive faz parte de governos que se consideram laicos e voltados à esquerda”. Para o deputado estadual André Ferreira, há “uma linha mais conservadora” em crescimento. “A gente observa que tanto os evangélicos quanto os militantes cristãos entendem que precisam de representação. O segmento está mostrando a sua força”.

Pastor Eurico credita a tendência de crescimento ligada à participação mais decisiva dos evangélicos na política graças ao que chama de “movimento anarquista” no país: “Direitos iguais às vezes deixam a desejar. A educação, por exemplo, perdeu muito em relação à época do ensino da Moral e Cívica e do OSPB (Organização Social e Polícia Brasileira). A planta cresce se bem regada e a juventude hoje em dia não respeita ninguém, é muita liberdade”.

Cleiton Collins vai na mesma linha e eleva o tom na discussão voltada para definição de gênero nas escolas. “A garantia de ensino de ideologia de gênero vem sendo empurrada goela abaixo”. Sobre o conservadorismo, tenta diferenciar-se. “Creio que pode ser conservadorismo da família, no sentido da edificação da sociedade. Isso ocorre em resposta a um liberalismo sem precedentes no Brasil”.

Direitos iguais às vezes deixam a desejar. A educação, por exemplo, perdeu muito em relação à época do ensino da Moral e Cívica e do OSPB

Pastor Eurico

Deputado Federal

Quando a religião não tem partido

Dos 44 anos de idade, o deputado estadual petista Odacy Amorim dedicou 24 à vida pública. “Minha fé é independente”, garante. Adventista do Sétimo Dia, garante prezar pela ideia do estado laico na Casa de Joaquim Nabuco – inclusive é autor da lei do dia estadual da liberdade de cultos. “Não misturo política com religião. Faço o máximo para evitar essa mistura. Os evangélicos entendem que é importante votar em uma pessoa com temor a Deus e, embora precise de homens e mulheres de princípios, é necessário ter cuidado para não misturar isso com religião. Muita gente do campo evangélico gosta dessa coisa mais acirrada, eu creio que o cristão tem que ter serenidade e equilíbrio”.

Apesar do perfil mais moderado, Odacy assume que o fato de ser evangélico ajuda no momento das eleições. “É um segmento importante para mim, sem dúvida. Eu defendo princípios que esses eleitores se identificam, defendo a família, mas nunca me verão jogar pedra em ninguém por uma posição diferente da minha”. Membro de um partido (PT) historicamente ligado a posicionamentos progressistas – apesar de a legenda ter feito alianças com segmentos conservadores visando as eleições – o deputado garante que sabe posicionar-se pesando as diferenças entre partido e religião. “Sou do PT e em alguns momentos não votei com o PT por questão de princípios”.

Para o cientista político Michel Zaidan, a expansão do movimento evangélico, em si, parte de um projeto ideológico que culmina em um viés político e o consequente crescimento da bancada. “Há um comportamento de unidade, com planejamento estratégico. Vão à luta por meio do trabalho da igreja e há alianças para aumentar a influência. E muitos partidos tiram proveito dessa força, mesmo com ideologias diferentes, para ganhar votos, ganhar poder”, aponta. Ele também trata a queda das utopias laicas como um condicional para expansão da religião evangélica. “O socialismo e o comunismo ruíram e a Igreja passou a ocupar esse espaço, principalmente com a teoria da prosperidade”.

É um segmento importante para mim, sem dúvida. Eu defendo princípios que esses eleitores se identificam, defendo a família, mas nunca me verão jogar pedra em ninguém por uma posição diferente da minha

Odacy Amorim

Deputado estadual

Entrevista com Pedro Soares                                                                                                                 

Pedro Soares/Cortesia

Graduado em Relações Internacionais pela Faculdade Integrada do Recife e doutor em ciências políticas pela Universidade Federal de Pernambuco, Pedro Soares é especialista na mistura entre política e religião no Brasil. Ao Diario, alertou que essa articulação pode gerar um discurso conservador, porém ressaltou que dentro da democracia e dos parâmetros legais é preciso que haja espaço para diversos pontos de vista.

Tendência de crescimento

Há certamente um crescimento e um reconhecimento político da ascensão dos evangélicos na política sul-americana, sobretudo na brasileira. Justifica-se pela utilização da teologia neopentecostal na política. Como por exemplo, a demonização do opositor político e da corrupção.

Eleitores e fiéis

As articulações entre política e religião não é algo novo. Muito menos a demonstração de hegemonia religiosa dentro da política, como fazem os neopentecostais hoje. O problema não se coloca pela participação dos religiosos (que é uma constante na história do Brasil), mas sim pelo uso de ferramentas políticas articuladas a uma discurso religioso conservador. Isso sim é digno de preocupação.

Os evangélicos chegam na política brasileira na primeira metade do século 20, mas só conseguem destaque a partir do recente período de redemocratização (1980). Apesar desse avanço e de um discurso agressivo, temos que atentar para o fato de que, dentro de uma democracia saudável, há um respeito pela multiplicidade de opiniões e a manutenção desse pluralismo não pode acarretar na construção de um inimigo político a ponto de um dos lados observá-lo como algo a ser aniquilado. É natural que dentro das democracias haja excessos, radicalismos e opiniões diversas. O que não pode haver é a unicidade de opiniões, como se todos concordassem com todos. Isso não existe dentro de uma democracia de verdade.

Projetos políticos/religiosos

É possível limitar, dentro do Congresso mesmo, mas a força de persuasão e articulação dessa ala cresce e conquista politicamente até quem não é evangélico. O problema é que a população brasileira ainda é muito conservadora e acredita muito que os princípios religiosos se aplicam a todos os setores da sociedade. Assim, fica até difícil os Ministérios Públicos questionarem a aprovação dos projetos.

Chegada ao executivo

Acredito que a longo prazo, porque a força dos evangélicos ainda é ascendente. Eles ainda não conquistaram articulações suficientes para derrubar a maioria católica.

O ideal

O ponto aceitável seria aquele no qual as decisões tomadas a partir dos preceitos religiosos alcançassem a todos. Não podemos condenar a inserção de preceitos religiosos na política porque é algo que não vai deixar de existir. A religião, seja ela qual for, origina-se por uma questão política, e expande por questões místicas, sobrenaturais, etc. Logo, é bem complexo visualizar a política sem princípios religiosos. O ponto do problema está na imposição e no conservadorismo desses princípios. É isso que tem que ser combatido.

João Vitor Pascoal

João Vitor Pascoal

Repórter

João Vitor é estudante de jornalismo da UFPE. Escreve para o Diario desde 2014, com passagem pela editoria de Política.

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