O atleta do bombom da Avenida Agamenon Magalhães

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Durante seis dias na semana, Melquisedec Nascimento, 26 anos, marca território em frente a um colégio particular da Avenida Agamenon Magalhães, uma das mais movimentadas do Recife. Calmamente, vai vendendo bombons aos motoristas enquanto o sinal está fechado. O trabalho começa nas primeiras horas da manhã, por volta das 6h30, e termina por volta das 14h, podendo, por vezes, se estender até o fim de tarde, quando a clientela diminui. “No começo, vendia fruta. Quando completei 15 anos, meu pai se separou da minha mãe, aí ficava ruim para ir até a Ceasa sozinho. Então, passei a vender canetas, mas não rendeu muito. Troquei por flanelas e agora vendo bombons” relata.

Melquisedec Nascimento. Karina Morais/DP

Quando o sinal fecha, ele caminha entre os carros, pendurando um saquinho com oito bombons. Avança lentamente, uma vez limitado por uma má formação nos braços decorrente de uma gestação que sofreu os efeitos do medicamento Talidomida, que vitimou milhares de crianças até os anos 1980. Os bombons permanecem ali por alguns segundos – apenas o tempo de voltar os recolhendo, enquanto o sinal permanece vermelho. Tudo ocorre em menos de um minuto. Ao longo do dia, são 100 saquinhos, feitos com a esposa, colocados quatro a quatro, em busca de compradores. A sua rotina é  das mais pesadas. “Hoje só vim mesmo porque preciso. Só dormi duas horas, porque passei a noite pintando a casa e preparando o saquinho de bombons”.

Melquisedec Nascimento. Karina Morais/DP

Nesses cinco anos de idas e vindas no semáforo, Melquisedec já presenciou diversos assaltos a mão armada e acidentes envolvendo carros e motos. A maioria, diz, quando chove ou motoristas falam ao celular. Apesar de ter visto diversos casos violentos, afirma não ter medo que suas coisas sejam roubadas porque acredita no costume das pessoas em relação a ele. As pausas são feitas apenas para tomar água ou usar o banheiro dos estabelecimentos próximo ao ponto onde fica.

Às vezes, surpresas boas se fazem ao seu redor. Enquanto dava entrevista, foi abordado por um motociclista: “É para você. Presente de Natal”, disse, ao entregar-lhe um panetone. Vez por outra, é alvo das boas ações – recebe presentes de desconhecidos ou pessoas que acompanham sua rotina. “Outro dia, uma mulher até deu um presente para minha filha, de 5 anos”. No dia a dia, segue sem esperar presentes, contando apenas com o suor de seu trabalho. De quatro em quatro saquinho de bala, cada um a R$ 1. A cada sinal fechado, abre-se uma oportunidade para a vida…

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Daniele Alves

Daniele Alves

Repórter

Daniele é estagiária do Diario desde dezembro de 2015. Estuda jornalismo na faculdade Aeso e escreve para a editoria de dados do jornal, no projeto CuriosaMente. É viciada em balas de semáforo, desde que não sejam de café.

Karina Morais

Karina Morais

Fotógrafa

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