Mototáxis: uma legião necessária, mas ainda invisível no Recife

Falta de acessibilidade nos morros, desemprego e violência estão entre motivos de quem defende atividade, mas insegurança no transporte e disponibilidade de ônibus são evocados por quem insiste em sua proibição

 

No meio da agitação do centro comercial do Vasco da Gama, bairro da zona Norte do Recife, um grupos de rapazes espera pacientemente por quem queira uma “carona”. A viagem tem preço: R$ 5 para quem quiser subir em algum dos bairros vizinhos, chegando a R$ 20 ou 30, para o Centro. A clientela depende do período do mês ou dia da semana, mas sempre chega, fazendo do mototáxi a única fonte de sustento de dezenas de pessoas desempregadas da região. “Tem dias que é mais difícil. A gente tira uns trinta, quarenta (reais), mas tem dia que é para mais de cem”, afirma Gilson da Silva. Essa tem sido a rotina dele nos últimos oito anos, sempre na praça do Vasco, de manhã cedinho, quando os mais atrasados pagam para chegar na hora no trabalho, até o fim da tarde, quando quem vem cansado de uma jornada exaustiva se dá ao luxo de não subir ladeiras caminhando. Mais de três grupos semelhantes ao de Gilson se aglomeram na região. De tão natural, a atividade não parece clandestina. Mas, aos olhos do poder público, é.

Desde 2009, a legislação federal deixa a cargo das cidades o reconhecimento da atividade. Na Região Metropolitana do Recife, mototáxis só são regularizados, com fardamento, emplacamento e tabelas de preço em Jaboatão dos Guararapes, Cabo de Santo Agostinho e em Moreno. Segundo o Sindicato de Mototaxistas de Pernambuco, porém, em todos os outros municípios exceto a capital, a profissão é reconhecida. Em alguns, projetos de lei tramitam para a regularização. “Só em Jaboatão, foram mais de 18 anos de luta até conseguir o reconhecimento. Hoje, são cerca de 700 legalizados, mas com os clandestinos a média é de 3 mil”, afirma Rinaldo Tavares, presidente da instituição.

No Centro da cidade, é possível ver dezenas de mototaxistas devidamente identificados, de colete e placa vermelha. Todos passaram por cursos de capacitação e fizeram uma espécie de “concurso”, com análise de direção segura e quantidade de pontos na carteira para poder trabalhar. Um novo edital deve ser aberto ainda em 2017, tornando outras 300 pessoas aptas a exercer a função.

mil é o número estimado de mototaxistas na capital

reais é o preço mínimo das corridas no Recife (Ônibus/Anel A: R$ 3,20)

Enquanto isso, na capital, única a não reconhecer a profissão, a justificativa oficial para a rejeição do transporte pela Companhia de Trânsito e Transporte Urbano (CTTU), além da “insegurança” em levar caronas no modal campeão de acidentes nas vias recifenses, é de que há ônibus complementares suficientes para quem mora nas regiões mais distantes. A clientela, ponto fixo e até mesmo estimativas sobre a quantidade de mototaxistas na cidade, que excede os 3,5 mil, mostra uma série de fatores ignorados nesta conta. Entre eles estão a violência urbana, o desemprego e o desamparo de transporte nas áreas suburbanas.

“Hoje, existem cerca de 700 legalizados (em Jaboatão), mas juntando com os clandestinos a média é de 3 mil”

Rinaldo Tavares

Presidente do Sindicato dos Mototaxistas de Pernambuco

A operadora de caixa Rizabelly Ferreira, de 24 anos, mora em Nova Descoberta e trabalha no bairro de Casa Forte, ambos na Zona Norte do Recife. A carga horária não convencional faz com que ela precise trabalhar aos domingos. É essa a hora na qual não pensa duas vezes e “adere à clandestinidade”. Paga cerca de R$ 10, três vezes o valor de uma passagem de ônibus, para sair da praça central do bairro onde vive até a porta do trabalho. O motivo, em uma cidade com números alarmantes de violência, é simples. “Prefiro pagar caro e chegar em segurança do que economizar e ser assaltada no ônibus ou andando para o trabalho”, conta. Ela faz o mesmo caminho há mais de um ano, diz não ter medo de sofrer acidentes e garante ficar satisfeita com a pontualidade e segurança, mesmo pagando mais. “Quando venho de ônibus preciso descer uma rua atrás e no fim de semana é muito esquisito”, comenta.

Em busca da legalidade

Quem está na clandestinidade garante: investiria em cursos e melhoria de equipamentos para ter melhores condições de trabalho. “A gente fica aqui super desorganizado. Se tivesse alguém para tomar a frente, dava para colocar um toldo, uma mesa para descansar quando não tem cliente”, conta Gilson. Para ele, a padronização ajudaria não só a chamar o cliente, mas também a evitar abordagens na rua, tirando o estigma pregado por tantos anos no modal. “Hoje em dia, quando duas pessoas andam em uma moto já pensam que é ladrão. Em uma corrida com passageiro no Arruda (também na Zona Norte) já fui parado por policial, colocaram arma na minha cabeça. Isso seria algo resolvido com um colete, por exemplo”, recorda.

A própria atuação dos motociclistas à luz do dia mostra a escassez das fiscalizações, mas quando algum dos rapazes tem a moto apreendida por qualquer problema, só resta buscar outro serviço para continuar sustentando a casa. “Às vezes faço bico de garçom, animador de festa, tudo para desenrolar algum dinheiro”, afirma Inaldo Bezerra, que costuma trabalhar na mesma praça pelo horário da noite. Para o especialista em delegamento de transporte urbano da Universidade Federal de Pernambuco Oswaldo Lima Neto, há uma série de problemáticas a serem analisadas na existência desse transporte, independentemente da cidade. Na opinião do professor do departamento de engenharia da UFPE, quando uma prefeitura permite o funcionamento de modal tão “arriscado” quanto a moto para transporte passageiros, ela reafirma a precariedade do transporte de uma cidade. “Se o poder público não vai dar esse transporte, não há outra saída para a população a não ser usar o mototáxi para atender às atividades mais essenciais, como ir ao trabalho, fazer compras ou um atendimento de emergência”, aponta.

A CTTU, por sua vez, afirma que na cidade existem 6,1 mil táxis e 24 linhas de ônibus complementares, 18 delas gratuitas. As linhas atendem a 40 comunidades diferentes. Ainda assim, andar em locais como o Alto do Pascoal e Alto Santa Terezinha, repletos de escadarias e ruas estreitas, revelam a necessidade de mudanças. “Em alguns lugares, o ônibus não consegue entrar. A gente só entra com a moto”, explica Inaldo. É neste ponto que o motociclista e o acadêmico concordam: há necessidade de mudança na acessibilidade de bairros periféricos do Recife. “Na cidade de Salvador tem algo chamado Plano Inclinado, em que um elevador sobe apoiado em uma encosta, transportando de áreas baixas a altas. Em Medelín (Colômbia), não só tem teleférico, como escada rolante. Ou seja, você tem formas técnicas de ocupar essa área de modo melhor para a população que mora na parte alta não seja excluída da de baixo”, ensina Oswaldo.

 

 

 

 

 

E a segurança?

 

 

 

 

 

Apesar do número de acidentes com moto na RMR ter diminuído de 5,5 mil para 4,4 mil entre 2015 e 2016, o transporte em duas rodas ainda é visto como vilão no trânsito das cidades. Para Oswaldo, a justificativa da insegurança de se utilizar uma motocicleta não deve ser atribuída apenas ao veículo em si, e sim ao tipo de teste realizado para se formar estes condutores. “É necessário algum tipo de teste que detecte se o sujeito está propenso a correr riscos além do necessário, porque andar de forma irresponsável no trânsito é um risco imenso”, afirma.

Entre as obrigatoriedades para se submeter ao emprego legalizado em Jaboatão, porém, estão alguns desses exames. “O motociclista precisa ter mais de dois anos de carteira e apresentar 16 documentos diferentes, entre eles, antecedentes criminais, um teste físico e outro psicológico”, conta Rinaldo. No município, os legalizados agora buscam padronização na cor dos coletes e adesivação em todas as motos.

 

Mototáxis registrados no Centro de Jaboatão

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Onde a atividade é proibida, o mototaxista pode ser multado por transporte clandestino, tendo veículo apreendido e multa no valor de R$ 4,7 mil aplicada. Se isso acontecer mais de uma vez, o valor da multa pode ser dobrado.
Lorena Barros

Lorena Barros

Repórter

Lorena é jornalista formada pela Universidade Federal de Pernambuco. Integra a equipe do CuriosaMente desde maio de 2016.

Peu Ricardo

Peu Ricardo

Fotógrafo

Peu Ricardo é formado em comunicação pela Aeso – Faculdades Integradas Barros Melo. Trabalha como fotojornalista no Diario de Pernambuco desde dezembro de 2015.

Reportagem publicada integralmente no Diario de Pernambuco em 29 de setembro de 2017.

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