Numa vida que não lhe deu trégua, Luzinete encontrou refúgio na amizade de um pato

por | maio 11, 2017

O melhor amigo de Luzinete Maria da Conceição, 39 anos, é um pato. Animal com nome de gente: Edvaldo Morais – “Morais com i”, ressalta Luzinete. Foi batizado assim por um funcionário responsável pela manutenção do Parque 13 de Maio, no Centro do Recife, fã do radialista de mesmo nome.

Todo santo dia, às 6h, Edvaldo acorda a amiga. Como se fosse um filho impaciente pela mãe que insiste em prolongar o descanso na cama. A insistência. pelo despertar de Luzinete não é apenas pela afeição desenvolvida entre os dois. “Novato” no 13 de Maio, Edvaldo não tem grande afinidade com os outros patos que habitam o local. Fica deslocado, quase sempre sozinho, ao contrário dos demais que, normalmente, estão em grupo, circulando pelo parque.

Luzinete também é adepta da discrição. Andar vagaroso, gestos comedidos e poucas palavras. Interage com um, acena para outro, já é conhecida pelos frequentadores e funcionários do local.

As histórias dela e de Edvaldo Morais começam a se cruzar em janeiro de 2017. Não se sabe a data ao certo, mas ele apareceu em um sábado pela manhã, possivelmente abandonado, acreditam os funcionários do parque. “Esse pato é de sítio, acho que o dono não queria mais ele e deixou aqui de madrugada. Até cortaram as asas dele, pra voar”, supõe José Carlos Ventura, responsável pela escolha do nome de Edvaldo e funcionário do 13 de Maio há três anos.

José Carlos ventura, funcionário do 13 de Maio - Nando Chiappetta/DP

Como toda novidade, o pato ganhou atenção. Agregou a simpatia das pessoas que convivem com ele, principalmente Luzinete. Mas, para que hoje ela e Edvaldo troquem afagos, foi preciso muita insistência. “Eu comecei me aproximando dele para dar comida, mas ele me bicava, não queria conversa. Aí eu comecei a dar banho, ele começou a se soltar mais. Hoje me acorda de manhã cedo e até me protege se alguém vier mexer comigo”, relata com um sorriso no canto da boca.

Sorrisos não são corriqueiros na boca da melhor amiga de Edvaldo. Talvez o próprio pato seja um dos poucos motivos que Luzinete tem para sorrir. É um caso de identificação. Edvaldo foi abandonado no parque, Luzinete lida com diversas perdas desde a infância. Talvez enxergue nele os três filhos, com os quais não convive. Sinta como é ter alguém que depende dela, mesmo que seja apenas para dar comida ou um afago. Edvaldo preenche um vazio que ocupa o peito de Luzinete, ganha forma nas suas palavras e se estampa no seu olhar.

De inusitado na vida de Luzinete somente a amizade com um pato. Todo o caminho que percorreu até chegar ao 13 de Maio, até encontrar Edvaldo é, infelizmente, comum a muitos outros recifenses levados a morar na rua. De acordo com dados, de 2016, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), uma metrópole nordestina – caso do Recife – tem, em média, 7.095 pessoas em situação de rua. Luzinete está nessa situação há sete meses. Deixou a residência que dividia com o terceiro marido para evitar “cometer uma besteira”.

A besteira seria motivada pelas constantes agressões às quais, apesar de tão acostumada, decidiu não mais tolerar. “Foi melhor assim. De outro modo quem iria sofrer eram meus filhos”. Perdeu o contato com os três filhos. O mais velho mora com a avó em São Lourenço da Mata, o outro menino e a menina seguem com o pai, em Santo Amaro. Desde então, tem no Parque 13 de Maio sua “casa” e em um dos bancos de madeira do local, sua “cama”.

A história de Luzinete, pouco tem de belo. Irmã mais velha – entre quatro mulheres e um homem – foi a responsável, desde pequena, por cuidar dos irmãos. A mãe, conta ela, saía de casa diariamente de manhã cedo.

Nando Chiappetta/DP

A ansiedade tomava conta das crianças no início da noite, quando a mãe retornava para casa com o que, por vezes, seria a única refeição da família. De barriga (nem tão) cheia iam dormir. Todos em esteiras, sobre o chão de terra batida de uma casa com paredes de barro em São Lourenço da Mata, Região Metropolitana do Recife. A casa, em péssimas condições, que nem própria era, pagavam aluguel. O pai, para Luzinete, é uma vaga lembrança. Aos cinco, já não o tinha em sua convivência. “Ele roubava, aí vieram e mataram ele”, relata rapidamente, quase contando as palavras.  Desde os cinco acostumada à tragédia, seguiu uma vida que não lhe deu tréguas.

Nando Chiappetta/DP

Aos 8, junto aos irmãos mais novos, já não tinha infância. Pedia esmola. “Minha mãe bebia muito e obrigava a gente a pedir. Só fui pra escola até a 2ª série (atual 3º ano do ensino fundamental), enquanto tava no Juizado de Menores”, rememora. Entre indas e vidas ao Juizado, que só saiu da sua vida após a maioridade, aos 13, se “casou”. Começou a morar junto com o primeiro marido. Relembra que, somente então, já morando no Recife, passou a dormir em um lugar que não era a esteira sobre o chão frio – improvisavam (ela e o companheiro) um sofá, como cama de casal. Seria o início de uma história de amor.

Não na vida de Luzinete. Aos 14, veio o primeiro dos três filhos. Após seu nascimento, teve início também a companhia ingrata da violência doméstica praticada pelo marido. “Ele bebia muito. Chegava em casa e vinha me bater. Nisso eu apanhei todo dia”. Apesar de não ter a maioria das agressões sofridas contabilizadas por denúncias, Luzinete encontra histórias semelhantes em estatísticas. Somente em 2016, a Secretaria de Defesa Social registrou 85 casos de violência doméstica ou familiar contra a mulher por dia, totalizando mais de 31 mil ocorrências.

Nando Chiappetta/DP

Depois do primeiro casamento, que durou seis anos, ela teve dois outros homens com os quais manteve relacionamentos mais longos. A segunda união durou cinco anos, já a terceira, outros quatro. Da rotina de agressões, veio a fuga na cola de sapateiro, ainda jovem. Vieram também o álcool e o cigarro, os quais a acompanham até hoje.

Tira seu sustento pedindo ajuda nas proximidades do 13 de Maio, sobretudo na Rua Mamede Simões, repleta de bares. “Por dia, eu consigo uns cinco reais. Antes, eu pedia até na Conde da Boa Vista, mas tá muito perigoso. O pessoal pensa que eu sou ladra, mas não roubo, prefiro passar fome do que roubar”.

Dia após dia, para Luzinete, resiliência não é opção, mas a saída. Não a única, não que não tenha tentado outras. Há cicatrizes que não deixam mentir. Há histórias que ela prefere omitir.

“Se eu pudesse realizar meu sonho, teria uma casa, com uma casa eu tava satisfeita. Trazia meus filhos e no quintal bem grande eu levava ele (Edvaldo Morais) pra morar comigo”. Luzinete tem o direito de sonhar. Ao menos até as seis da manhã, quando seu único amigo, um pato, lhe acorda e traz a realidade de volta.

Nando Chiappetta/DP
João Vitor Pascoal

João Vitor Pascoal

Repórter

João é repórter do Diario desde 2014. Passou pela editoria de Política, antes de fazer parte do projeto CuriosaMente, da editoria de dados do jornal.

Nando Chiappetta

Nando Chiappetta

Fotógrafo e videografista

Nando Chiappetta é o fotógrafo ítalo-brasileiro do Diario. Foi ele quem, primeiro, encontrou Luzinete. E se interessou por sua história

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