Limpeza de esgotos: o trabalho que (quase) ninguém gostaria de ter

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Pernambucanos higienizadores de poços revelam cotidiano desafiador além de odores desagradáveis e preocupações com segurança que, acredite, os fazem felizes

 

Um muro com arames farpados e avisos de “acesso restrito” e “risco biológico” cerca um espaço no conjunto habitacional Ignêz Andreazza, localizado no bairro de Areias, Zona Oeste do Recife. Por trás desse não convidativo muro há uma cavidade de aproximadamente quatro metros de profundidade, escura e impregnada de cheiros nada agradáveis. É nesse ambiente que Berenaldo do Nascimento Valença, 51, exerce sua profissão há 15 anos, sempre satisfeito. Ele é auxiliar de saneamento e faz a limpeza de uma estrutura chamada “poço úmido”, parte de uma estação elevatória de esgoto, responsável por armazenar e bombear os efluentes para os locais de tratamento. “Não faria outra coisa na minha vida, executo muito bem o que faço”, afirma orgulhoso.

Berenaldo trabalhou em uma destilaria na cidade de Vitória de Santo Antão, onde mora, até 2002, quando começou a fazer limpeza desses poços. Desde então,  já se sentia bem no que fazia e os possíveis percalços que fariam outros desistir do serviço não tiveram força contra ele. “O cheiro é tranquilo, me acostumei logo com ele, não me incomoda nada. Nem mesmo minha alimentação foi atrapalhada, eu como muito bem na verdade”, conta. Também diz nunca ter sofrido nenhuma espécie de preconceito pelo que faz e recebe apoio total da família

Por conta da insalubridade e dos riscos oferecidos, Berenaldo, mais conhecido como Valença, precisa estar equipado com todo um aparato de segurança, desconfortável, principalmente por causa do calor, mas essencial para deixá-lo a salvo. Seu uniforme é um macacão de saneamento emborrachado, já equipado com luvas e botas. Ele ainda precisa usar um capacete de segurança, um protetor facial completo (viseira), uma máscara semifacial com filtro cartucho (responsável por filtrar os vapores orgânicos), além do cinto de segurança tipo paraquedista. Para descer até o fundo do poço, conta com um sistema de cordas e roldanas que tem como base um tripé estável. Lá embaixo, o trabalho em si parece ser mais simples: com uma pá, vai jogando os resíduos sólidos em um mangote que, acoplado em um caminhão de alto vácuo, faz a sucção. Porém, a temperatura deixa as coisas mais complicadas. “O cheiro, a gente já está acostumado, mas o calor que a roupa faz é grande”, explica.

Para a realização dos serviços, Valença precisa contar com uma equipe de, no mínimo, cinco pessoas. Um deles é Leandro Luan, 30, resgatista. Bombeiro civil há seis anos, ele manipula o sistema de cordas que desce o colega de trabalho. Necessita de atenção, pois em caso de algum mal súbito, o resgatista tem que ser preciso na subida para resgatar Berenaldo. “Nesse meu tempo com a equipe, nunca aconteceu uma emergência desse tipo. Estar ali para salvar uma vida não tem preço para mim, amo o que faço”, declara. Para auxiliar nisso, Leandro conta com o apoio de Roberto da Silva, que exerce a função de vigia há 17 anos, obrigatória nesse tipo de serviço. Ele observa Valença, prestando atenção nos sinais que exijam a subida dele e não pode desempenhar outra atividade durante a limpeza.

Lá embaixo, Valença nunca teve um mal súbito ou algo dessa gravidade, mas relata já ter passado por algumas situações que fizeram sua subida ser necessária. “Eu tenho muito medo de cobra e de vez em quando encontro uma lá por baixo. Peço pra subir na hora”. Para manter o condicionamento físico, ele joga futebol ao finais de semana e  participa tem aulas de ginástica laboral. Além disso, ele ainda faz um treinamento anual em relação ao trabalho em altura e em espaço confinado.

Em uma primeira impressão, o ambiente pode parecer extremamente inóspito. Porém, algumas medidas são tomadas para tornar viável a descida de Valença. Josivaldo Braga é supervisor de segurança e explica o que precisa ser feito para tornar possível a descida. “Para começar, o fluxo de efluentes é interrompido e o local é completamente desenergizado, evitando o risco de choques elétricos. Em seguida, um dispositivo chamado de multigás é descido até o poço úmido, onde são medidos os níveis de gases tóxicos e inflamáveis. Um exaustor faz a troca dos gases nocivos pelo gás atmosférico”, explica. Uma drenagem inicial do local também é feita.

Poços úmidos na Região Metropolitana do Recife

Metros do maior poço

Média de poços limpos em um mês

As normas de segurança exigem que Berenaldo permaneça por, no máximo, 30 minutos no poço. Após esse tempo, ele deve subir e descansar por 15 minutos. Às vezes, essa subida não é necessária, pois eles conseguem fazer a limpeza em menos de meia-hora. Porém, não é sempre assim. Poços maiores, como o do bairro do Arruda, que chega a 12 metros de profundidade levam mais tempo. Em casos de estações que apresentam algum problema estrutural, o trabalho pode durar até 20 dias. Esse trabalho prova que chegar ao fundo do poço não é tão simples quanto parece. “Se eu não gostasse, eu garanto que não estaria aqui. É um trabalho pesado, mas compensa”, afirma.

Marcela Cintra/DP
Marcela Cintra/DP

Medidas de segurança são primordiais no trabalho

Para realizar o trabalho da limpeza de poço úmido, a equipe precisa estar de acordo com normas regulamentadoras do Ministério do Trabalho. Nesse caso específico, são as normas 33 e 35 (conhecidas como NR-33 e NR-35), que falam respectivamente sobre o trabalho em espaço confinado e em altura.  A NR-33 designa que o trabalhador de espaço confinado faça exames médicos específicos, veda a realização do trabalho de maneira individual, proíbe o vigia de desempenhar outras tarefas que comprometam o trabalho principal de monitorar o trabalhador que desce. A NR-35 regulamenta qualquer trabalho executado acima de dois metros de altura e prevê uma série de treinamentos bienais para quem faz essa atividade.

Benildo Andrade é técnico de segurança do trabalho há 32 anos e supervisiona esse trabalho na BRK Ambiental, empresa em que trabalha Berenaldo e sua equipe, responsável pela manutenção e tratamento de esgoto de 144 estações da Região Metropolitana de Recife. Segundo ele, o trabalho precisa começar bem antes da descida. “Temos que fazer um check-list dos equipamentos, ver se está tudo em ordem. A ancoragem do sistema de cordas principalmente. Ela precisa estar no mais perfeito estado”, explica.

A parte líquida do poço também precisa ser drenada com antecedência, já que Valença tem que trabalhar com água no máximo na altura do tornozelo. Antes da entrada, uma série de documentos precisam ser preenchidos. A Permissão de Entrada e Trabalho (PET) contém o conjunto de medidas de controle da entrada no espaço confinado. Já a Análise Preliminar de Risco indica os principais riscos do ambiente, organiza a execução da atividade e previne os possíveis acidentes.

Alguns dos equipamentos de segurança usados nos serviço

Rostand Tiago

Rostand Tiago

Repórter

Rostand Tiago é estudante de jornalismo na Universidade Federal de Pernambuco. Escreve para o CuriosaMente desde janeiro de 2017. Não consegue se imaginar mergulhado no esgoto, mas já fez muita sujeira nessa vida…

Marcela Cintra

Marcela Cintra

Fotógrafa

Marcela Cintra é jornalista formada pela UFPE. Trabalha na equipe de redes sociais do Diario de Pernambuco. Apaixonada por fotografia, busca a melhor visão em cada clique, mesmo quando o olfato, como nesse caso, não ajuda.

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