De um primeiro rabisco às páginas, palcos e telas de cinema: como nasce um personagem?

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Aquele papel marcante no cinema, o personagem de seu jogo preferido ou o herói de um bom livro têm em comum uma coisa: são construções (e projeções) psicológicas de quem o imaginou e de todos que o executaram. Um processo que permeia todas as vertentes artísticas pode ser muito revelador

 

Entre a página em branco na qual começa a nascer e o momento de ser vestido e apresentado ao público, cada personagem criado passa por um curioso processo. Vai, aos poucos, herdando características subjetivas às pessoas envolvidas em sua criação – escritores, diretores, atores, ilustradores. O interessante é que, ao passo em que vai se tornando o que seus criadores desejam, também pode ajudá-los a compreender questões pessoais. Isto porque, segundo os psicólogos, uma ideia ficcional é uma tentativa de elaborar essas questões. Mas até que ponto um personagem é o escape de uma força inconsciente?

Amor, filme vencedor da Palma de Ouro e do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2012, é um exemplo dessas obras realizadas pela necessidade de “exorcizar demônios”. Michael Haneke, roteirista e diretor, revelou ter convivido com uma tia de 92 anos que, por problemas de saúde, desejava a própria morte. Na vida real, Haneke não só se negou a realizar a eutanásia na tia, como a socorreu de uma tentativa de suicídio. Na obra, que escreveu baseado no caso, o personagem principal mata a esposa, vítima de uma doença degenerativa do cérebro. Haneke reescreve sua própria história com o fim que não foi capaz de viver.

Tim Burton, por sua vez, mostrou em sua autobiografia como o personagem Edward mãos de tesoura surgiu de uma parte de si mesmo. Ele era frequentemente excluído em sua adolescência, “como se tivesse uma aura que afastasse as pessoas”. Edward é a imagem na qual Burton se reconhece quando lembra daquela época. Burton baseou todos os outros personagens do filme em pessoas com as quais conviveu nos anos 1970, para chegar a um contexto no qual fosse possível simbolicamente mudar a história de sua adolescência.

Atrás da cortina, o inconsciente

No desenho feito com lápis de cor no papel A4 é possível identificar um carro partindo da garagem de uma casa. As mãos pintando a arte são infantis e a coordenação motora ainda não está completamente desenvolvida. Quando o lápis risca o papel, passa das linhas limites. O autor do desenho, 7 anos, o descreve: “No carro, vai um filho e a mãe dele. Ela errou, mas ama muito o menino. Você sabe, na vida se erra e ele não tem mágoa dela.”

A mãe da criança engravidou dele antes de um casamento que não se concretizou. Atualmente, o menino mora com os avós, enquanto a mãe vive com uma nova família: novo marido e novo filho. A ligação entre a história de vida da criança e o desenho que criou não poderia ser mais clara. Mas a criança não percebe que está desenhando a si mesmo, de acordo com o professor de psicologia da UFPE Willher Nogueira, que supervisionou a realização do desenho. “Ela cria uma outra pessoa para falar dela mesma. Com isso, tenta elaborar uma questão que, inconscientemente, a incomoda”.
Wilher Nogueira. Créditos: Paulo Trigueiro/DP/DA Press.

A instrução dada ao garoto foi apenas para desenhar uma casa da maneira que ele quisesse. O processo faz parte de um teste projetivo, uma forma encontrada por psicólogos de base psicanalítica para investigar a subjetividade de alguém a partir de sua produção. Willher estuda esse tipo de avaliação há mais de vinte anos. “Muitas questões podem ser identificadas. É muito comum que relações familiares estejam presentes. Mas questões do momento também são percebidas. Como uma criança amputada desenhando uma pessoa realizando algo fisicamente excepcional”. Entre os adultos, a relação, ainda que não tão transparente, também se apresenta no que os artistas produzem: “As produções culturais podem ser até uma forma de dar vazão aos impulsos que o artista precisa conter na vida real”.

Crítica literária da Folha de São Paulo, a escritora Noemi Jaffe conhece o poder que a ficção tem de falar sobre seus autores. Tenta sempre criar narrativas com personagens diferentes de si própria. “Realmente falamos de outro para falarmos de nós. Quando falamos de nós, há defesas, mas quando falamos do outro, não há. Por outro lado, é preciso entender que literatura não é desabafo”, afirma. Seu processo de criação consiste em perguntas diretas e racionais sobre os personagens: “Quem ela é? Uma mulher que vive fugindo. Do que ela está fugindo? Da revolução. Qual o trabalho dela? Ela é botânica”. Ela acredita, contudo, que essas respostas, inventadas com esforço para que sejam impessoais, não deixam de projetar o seu conteúdo inconsciente.

Casos estudados no início dos anos 1990 pela psicóloga francesa Jacqueline Royer são ainda utilizados nas aula de Willher Nogueira para mostrar como as crianças projetam sua subjetividade nos desenhos que realizam. A posição e o tamanho dos objetos e as cores utilizadas são as formas mais claras de expressão no desenho infantil.

Dois exemplos de desenhos analisados por Jacqueline Royer:

Muito além da representação

Um dos trabalhos de Rael Lyra é desenvolver o visual de jogos e aplicativos e, de certa forma, tem a mesma responsabilidade dos atores: dar rosto a uma ideia. Algumas vezes é apenas algo vago e o ilustrador recebe apenas diretrizes gerais do que deve desenhar. Tem que imaginar, inclusive, a personalidade de quem vai desenhar. A solicitação também pode vir bem especificada das empresas de desenvolvimento de software. Mas é em sua tomada de decisões que sua identidade se revela ao público. O tipo de traço utilizado ou as cores escolhidas, por exemplo, fazem parte de sua assinatura visual e refletem uma ideologia. “Além do meu íntimo, a forma como apreendo visualmente o mundo e o interpreto também influenciam. Isso é racional, apesar de automático. É minha memória visual para guardar o que quero desenhar e minha coordenação motora para reproduzir isso corretamente. E o desenho nunca fica igual ao que a gente quer. Algo sempre se perde ou se ganha no caminho.”

Ilustração de Rael Lyra. Créditos: Arquivo Pessoal.

“Recebendo uma solicitação para desenhar um militar, por exemplo, não desenho um militar qualquer, mas um que faça parte do meu imaginário. Nesse processo, utilizo meu conhecimento sobre o exército ou sobre a cor das fardas”

Rael Lyra

Ilustrador

A ciência de transpor personalidades em palavras

Professor de roteiros no Rio de Janeiro, Sandro Massarani acredita que o processo de criação tem, sim, uma explicação. Segundo ele, o passo inicial geralmente se dá de forma simultânea entre uma imagem mental de um determinado personagem e uma determinada situação de uma história. “Um homem comprando uma flor. Um policial levando um tiro. Uma mulher chorando em um bar. Há um esboço de um personagem realizando uma ação”, explica. Em seguida, é necessário associar o personagem a um padrão de comportamento e, por fim, deve-se determinar qual é a necessidade dramática do personagem. “O que ele deseja na história? Ele vai conseguir o que quer? Ele vai mudar ao longo dos eventos?”. Após esses passos, resta ao autor refinar a personalidade da pessoa criada durante o resto da composição da obra.

Para criar uma história ou um personagem, é preciso tanto de técnica quanto de capacidade de observação, na opinião do professor. Recomenda ainda que a técnica deveria vir antes, porque seu exercício aguça o senso de observação do autor – serve, por exemplo, para checar se um personagem está completo.

“Um personagem autêntico deve ser multidimensional. Tem que ter pelo menos três características fortes em sua personalidade. Deve ter não somente virtudes, mas fraquezas”, explica.

A jornalista Thaís Cavalcanti frequentou oficinas de roteiro guiadas pelo escritor pernambucano Raimundo Carrero e não esquece as lições que tirou da época na hora de descrever pessoas dentro de narrativas. “Aprendi nas oficinas que o personagem não nasce do nada. É como uma costura de pequenos gestos que você cata de pessoas diversas. Na hora de descrevê-lo, utilizamos aqueles gestos e características que acreditamos que nos prenderia se estivéssemos no papel de leitor.”

Passo 1: Imagine mentalmente o personagem e o insira em uma situação.

Passo 3: Pense quais as motivações do personagem. O que faz ele ser quem ele é e o que ele deseja.

Passo 2: Crie padrões de comportamento, pense como ele reagiria aos estímulos.

Passo 4: Ele precisa ser multidimensional. Pense em pelo menos três características. Defeitos e virtudes.

Carrero dedicou 40 páginas do seu livro “Os Segredos da Ficção” à criação de personagens. “Eles estão perto da gente. É um amigo, cunhado ou conhecido que vemos sempre”, contou. Fred Gurgel, um personagem de Carrero, por exemplo, foi inspirado em um colega de trabalho, o repórter José Guerra, com quem trabalhou nos anos 1960. “Os jornais são ótimas fontes de personagens. Eles trazem fotos que nos ajudam a visualizar e imaginar o psicológico de quem vamos criar. Há até entrevistas com eles.”

Raimundo Carrero. Créditos: Alcione Ferreira/DP/DA Press.

Ação começa muito antes do “luz, câmera…”

De acordo com o professor de psicologia da UFPE Sylvio Ferreira, é impossível criar uma obra sem que ela esteja permeada por questões pessoais dos criadores e daqueles com quem eles já se relacionaram. “O próprio processo de criação só existe porque existe uma questão inconsciente pra ser elaborada”, explica o psicólogo. Mas o processo de criação em si acontece de maneira única para cada autor e, às vezes, o ritual nem mesmo é identificável de forma clara. Bacurau, do cineasta Kléber Mendonça Filho, por exemplo, existe apenas dentro das cabeças dele e do co-roteirista Juliano Dorneles. “Há pouquíssima coisa escrita. Há muito pensamento. Tem gente que escreve o nome do personagem, coloca um hífen e, em seguida, escreve tudo que ele é. Comigo não funciona assim.”

Kléber se baseia nas pessoas que conhece para criar personagens de roteiros. Vai, então, descobrindo quem eles são aos poucos, enquanto mentalmente os coloca em situações variadas. O interessante deste processo é que o personagem pode levá-lo além do ponto no qual a pessoa real, fonte de inspiração, iria. “Pode haver até oito pessoas servindo de base para um mesmo personagem e, se você ficar preso à maneira como essas pessoas reagiriam, a liberdade não flui”, explica. Já nas mulheres de suas obras, o prazer de quebrar a norma é maior. Numa sociedade machista, como classifica, as mulheres já aparecem em desvantagem e têm o comportamento tolhido pela opinião do público. “As pessoas pensam que uma mulher não deveria fazer certas coisas, mas no meu filme ela vai fazer o que quiser. Um exemplo disso é Bia, de O Som ao Redor. Ela é mãe de dois filhos, cuida da educação deles, fuma maconha e se libera sexualmente de uma maneira não-convencional (com uma máquina de lavar roupas)”. Para ele, uma contradição que existe apenas na visão do público, mas que, no fundo, é simplesmente verossímil.
Hilton Lacerda. Créditos: Fábio Nascimento/Divulgação.

O roteirista e cineasta Hilton Lacerda, começou a “fabricar pessoas” para o filme Amarelo Manga utilizando estereótipos. Caberia ao público questioná-los. “No início da narrativa há algo de muito caricatural. Quem é protestante é protestante mesmo, quem é durão é durão, Dunga é a bicha engraçada e há ainda o marginal”, explica. “Contudo, com o decorrer do filme, as pessoas vão percebendo que os personagens são mais e se surpreendem.”

Ele acredita que a forma como essa parte obscura das pessoas aparece no filme é o mais importante de um roteiro. E ainda que a  verossimilhança seja relativizada em seus roteiros, uma vez que “cinema permite tudo”, frequentemente o cineasta reproduz momentos que vivenciou ou pessoas que conheceu, modificados pelas imaginação ou razão.

“Minha família muitas vezes é a base que utilizo para criar meus personagens. Apesar disso, ‘estes’ são completamente diferentes ‘daqueles’”, garante.

Quando a ideia “toma corpo”

Tanto no cinema quanto no teatro, o ator é a última ponta do processo de criação de um personagem. A pessoa inventada só ganha corpo e vida quando interpretado. Antes, existe apenas na imaginação de quem o conhece muito mais do que é possível colocar em um papel. Passado do diretor para o ator, o personagem já se transforma – é criação dele também. Durante a pré-produção de Amarelo Manga, por exemplo, Matheus Nachtergaele procurou Hilton Lacerda para conhecer melhor o personagem Dunga, que interpretaria. Segundo o roteirista, ele queria saber se existia algo fora do roteiro que poderia ajudá-lo a compreender melhor a ideia do criador.

Matheus Nachtergaele. Créditos: Paulo Paiva/DP/DA Press.

Nachtergaele comemora a presença de Hilton no set porque, juntos, foram capazes de dar um fundo doloroso, apaixonado e vingativo a Dunga, de Amarelo Manga. “Eu achava que seria divertido e caricato brincar, mas logo vi que se tratava do descendente de uma genealogia de personagens afeminados da dramaturgia brasileira, como o Veludo de Plínio Marcos. Eu tinha que honrar a linhagem, inovar mantendo o esboço tradicional”, conta. “Me lembro que antes de filmarmos, disse a Claudio Assis: ‘Acho que não sei fazer o Dunga! É difícil!’. Ele me olhou espantadamente e respondeu: ‘Ok! Também não sei filmar!’ Assim é nosso cinema, feito todo de mãos dadas!”

Stela Maris em cena. Créditos: Ivana Moura/ON/DA Press.

Em processo quase oposto, a atriz Stella Maris Saldanha conta que atuou em peças de teatro em que tinha tanta liberdade para construir seu personagem que nem as diretrizes de cena eram passadas. “Há diretores que acreditam que o personagem é do ator e, assim, tentam trazer o mínimo de informações sobre ele”, explica, defendendo que os personagens herdam muito dos atores e se expressam a partir de referências pessoais. “É nosso repertório de emoções e histórias de vida que influenciam no resultado final observado pelo público. O bom ator tem uma boa compreensão intelectual do processo, de como se mover e se expressar. Ele também é capaz de se deixar tomar pelo papel”, analisa.

Psicanálise selvagem no cinema

Os fenômenos estudados pela psicanálise frequentemente transparecem nas obras dos cineastas, propositalmente ou não. Muitas vezes a reprodução do comportamento humano por parte dos autores é tão verrossimil que são utilizados pelos professores de psicologia para ilustrar suas aulas. No sistema inconsciente há um conteúdo escondido de nós mesmos, porque ele é oposto ao que pensamos conscientemente. Na dinâmica psíquica compreendida por Freud, esse conteúdo escondido tenta se mostrar para nós, mas o sistema consciente não deixa. O resultado desse conflito é variado, e frequentemente percebido pelos psicanalistas.

Jasmine em Blue Jasmine (2013) e Blanche Dubois em Um Bonde Chamado Desejo (1951)Tanto Jasmine quanto a personagem de quem foi originada, Blanche Dubois, são marcadas pela negação, um mecanismo de defesa da psique em que o sujeito se recusa a perceber a realidade do mundo exterior à ele. Para ambas as vaidosas ex-socialites, é difícil aceitar a nova situação econômica de pobreza e assumir algumas atitudes do passado.

Val em Dirigindo no Escuro (2002): Val, personagem representado por Woody Allen, se descobre cego sem motivo aparente. Um oftalmologista garante que, biologicamente, seu sistema visual está perfeito. Com o desenrolar do filme, o personagem descobre que sua cegueira é um sintoma psicossomático. Físico, mas de origem mental. A causa é uma força inconsciente a partir da ideia de que ele “fecha os olhos” para determinadas partes importantes de sua vida.

 Jurado #3 em 12 Homens e uma Sentença (1957): Durante uma discussão entre jurados para determinar o futuro de um réu, um deles é definitivo: o veredicto é “culpado”. Ele havia deslocado de forma inconsciente a representação do próprio filho – a quem julgava a necessidade de punição – para o réu, associando-os pela idade e por uma suposta rebeldia.

Cel. Fitts em Beleza Americana (1999): Sua homofobia é um mecanismo de defesa do inconsciente, para que ele não aceite que sente desejo por outros homens. Saber disto destruiria sua integridade psíquica, já que seu conteúdo consciente é heterossexualmente imperativo. Com a homofobia, Fitts está em contato com a homossexualidade e inconscientemente goza desta relação. Nesse caso, o investimento inconsciente homossexual tem a mesma intensidade que a defesa: a homofobia.

Zé do burro em O pagador de promessas (1962): Há um processo de identificação projetiva entre Zé do Burro, que paga uma promessa de carregar uma cruz, e Jesus Cristo. Ao passar do tempo, o fardo de Jesus se torna o fardo do personagem. “Além disso, é possível enxergar a sublimação. Nesse mecanismo, o indivíduo desloca a energia das pulsões sexuais não-aceitas para uma outra atividade. A religião é o campo apontado por Freud da ocorrência de sublimação por excelência”, explica o psicólogo Sylvio Ferreira.

Diane Selwyn em Cidade dos Sonhos (2001): Enquanto toma café e olha um homem desconhecido, Diane Selwyn recebe a notícia de que a namorada está noivando com outra pessoa. Num sonho, esses elementos se associam e, juntos, se vinculam à repulsa vivida no momento. Isso faz com que aquele desconhecido surja para Diane regurgitando cafés. A forma encontrada pelo inconsciente de reviver o trauma é no momento que as defesas psíquicas estão relaxadas: no sono.

Paulo Trigueiro

Paulo Trigueiro

Repórter

Paulo é estudante de jornalismo e graduado em psicologia. Para esta reportagem, contou com a colaboração do professor Dario Brito e com as artes de Greg. Por enquanto, entrevista personagens, em vez de criá-los. No papel, só narrações (bonecos de palito).

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