Conexão Pernambuco-campos de refugiados: como voluntários ajudam a “mudar o mundo”

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Pessoas de diferentes idades e profissões saem do estado para vivenciar experiências marcantes e traumáticas, mas extremamente necessárias para buscar justiça social

 

João Victor, aos 19 anos, poderia passar os dias trabalhando normalmente e curtindo as férias em uma praia, mas resolveu ser voluntário em campos que recebem refugiados. Já Ebénezer Medeiros Paz e Silva, de 44 anos, tem um histórico longo de campanhas e viagens das quais participou para ajudar quem mais precisava, começando no estado onde foi criado, Pernambuco. Entre as missões, os dois se conheceram e hoje compartilham história que tocam o coração e inspiram outros potenciais voluntários.

João Victor/Arquivo Pessoal

A ONU classificou que estamos vivendo na pior crise humanitária do século. Em 2015, chegou a 65,3 milhões o número de pessoas que saíram de seus países para fugir de perseguições políticas e guerras. A origem da maior parte desses refugiados é África ou Oriente Médio, sendo a metade da Síria, devido à guerra civil na qual o país se encontra desde 2011. Ao chegarem ao destino para o qual estão fugindo, esses refugiados precisam de cuidados e atenção diferenciados.

Estudante de Ciência Política com ênfase em Relações Internacionais da Universidade Federal de Pernambuco, João atualmente está em um curso de missionário na Universidade das Nações. Em 2015, João foi para a Alemanha trabalhar em um dos campos da cidade de Bad Blankenburg, onde a maioria dos refugiados vinham da Síria, Afeganistão e Eritreia.

Refugiado é uma pessoa que sai de seu país por conta de “fundados temores de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas”, em situações nas quais “não possa ou não queira regressar”.

Junto com a equipe de trabalho, ele ajudava na coleta e distribuição de doações, cozinhava e fazia atividades recreativas com as crianças, além de ouvir as histórias do imigrantes. “Todas, sem exceção, extremamente marcantes”, relembra João.

O processo para participar do grupo começou e o jovem não hesitou. Ao se interessar pelo programa de voluntariado, João teve 15 dias para conseguir liberação do trabalho (ele era professor de inglês), levantou dinheiro para a viagem, fez as malas e então embarcou na jornada. “Havia acontecido alguns ataques terroristas dias antes do meu embarque, mas isso só confirmou no meu coração a necessidade de agir e levar amor àquelas pessoas. Independentemente dos riscos que estava correndo.”

Em casa, a família e amigos não ficaram nada surpresos com a decisão de viajar para ajudar refugiados. “Meus pais sabem o filho que tem. Desde criança sempre fui aventureiro e  tive um senso de justiça muito alto. Ver aquelas pessoas nas situações que estavam passando estava muito errado pra mim”.

Entre as muitas histórias que ouviu, João hoje tem uma grande coleção de aprendizados e uma nova visão a respeito da vida em sociedade. “Culturalmente somos ensinados a pensar em nós em primeiro, segundo e terceiro lugar. Mas um princípio que acredito fortemente é que eu sou um indivíduo que não foi criado para ser individualista. Parar um pouco de pensar na minha vida e nos meus sonhos pelas necessidades de outros é completamente justo”, conta.

Segundo João, não há dificuldade de comunicação. Quando necessário, a equipe tem acesso a intérpretes para línguas como Árabe e Dari, mas o que mais carrega significado é o carinho e afeto. “No final de tudo, a linguagem mais efetiva para nossa comunicação é o amor.”

Ao observar a relação das pessoas alemãs com esses refugiados, João tem um panorama de uma sociedade dividida. “A população mais conservadora se opõe a aceitar os refugiados. Em contrapartida, uma grande parte da população está bastante aberta a eles, pois os vêem como a futura população ativa da Alemanha”, explica. “O julgamento e pensamento xenófobo é produto da cultura individualista e com déficit de empatia. Fica claro que aceitar essa grande quantidade de imigrantes implica adaptações, mas é sim possível. A maioria das atuais potências mundiais foram formadas por imigrantes e eles têm parte clara nesse desempenho. Penso que os refugiados podem somar muitos mais do que subtrair.”

De acordo com o pesquisador e doutor em temas acerca da imigração Marcos de Araújo Silva, a maioria dos refugiados buscam abrigo em cidades vizinhas as suas, principalmente por questões de religião. Porém, como o número de pessoas que buscam refúgio é grande, parte dessas pessoas acabam indo para países maiores, como a Alemanha. “É importante considerar que as pessoas pensam que, por mais que fujam da guerra, elas deveriam ter vários direitos garantidos, como existe nos tratados universais”, explica.

João Victor/Arquivo Pessoal

Um desses direitos seria o de reagrupamento familiar, concedido àqueles com visto de refugiado. Porém, a maioria das pessoas que entram em outros países conseguem apenas o visto humanitário, que não permite que o refugiado vá ao encontro dos outros membros da família.

Para quem tem interesse de ser voluntário, o pesquisador alerta para as condições com as quais é preciso lidar. Alguns refugiados chegam ao campo muito traumatizados, abatidos, às vezes doentes; também há casos de mulheres grávidas, pessoas com câncer, com aids, crianças com necessidades especiais e muito abaladas psicologicamente. O voluntário precisa estar preparado para lidar com essas condições sem se mostrar afetado, para garantir a otimização de seu serviço.

“É necessário ter uma visão um pouco pragmática. Voluntários tem o trabalho de denunciar, junto aos organismos internacionais, sobre a crise de menores desacompanhados que estão tentando chegar nos Estados Unidos, atravessando o México a pé. Muitos jornalistas são voluntários e produzem audiovisuais para conscientizar a população para que ela não fique presa a apenas ao que aparece na televisão”.

Voluntariado começou em Pernambuco

Ebenézer Medeiros Paz e Silva, de 44 anos, nasceu em Rio Branco, no Acre, mas cresceu em Recife e Garanhuns e diz, com orgulho, que se considera pernambucano. Ele teve a primeira experiência como voluntário aos 14 anos, ao implantar uma igreja em Camaragibe, onde também funcionava uma escola.

Depois, aos 20 anos, passou três meses pilotando navios para o Mercy Ships (Navios de Misericórdia), distribuindo roupas e medicamentos para populações carentes e ensinando artes na escola primária à bordo, além de visitar comunidades paupérrimas na Guiana Inglesa. Como parte do Jovens Com Uma Missão, ele ajudou refugiados do Curdistão a se relocarem para o Texas, nos Estados Unidos, e os ajudou com a reforma dos apartamentos onde morariam.

Ebenézer também já participou de grupos para receber refugiados na Grécia, onde reencontrou João Victor, que havia conhecido em Recife, e na Suécia, onde mora hoje. Em todos esses anos, ele acumulou dezenas de experiências e tem um longo currículo de histórias marcantes para contar. Entre elas, o relato da noite em que ajudou a resgatar 700 pessoas.

“Um dos momentos mais emocionantes que vivi no trabalho humanitário voluntário se deu durante a recente crise migratória com os refugiados da Síria. Estávamos trabalhando com as equipes da UNHCR, a instituição norueguesa Dråpen i havet (uma gota no oceano) e a americana Samaritan’s Purse. Nosso trabalho era patrulhar a costa da ilha de Lesbos na Grécia, fronteira com a Turquia, procurando embarcações de refugiados em necessidade de resgate. A costa era pedregosa e as rochas ofereciam perigo aos que se amontoavam nos botes; 40, 50 pessoas em botes que mal tinham lugar para 10! As crianças eram literalmente empilhadas umas em cima das outras, quando não caíam no mar e eram deixadas para trás, tendo seus pequenos corpos recolhidos sem vida ao amanhecer”, relembra.

Refugiados passam a ser uma realidade recorrente também no Brasil

No Brasil, o órgão responsável pelos refugiados que tentam entrar no país é o Comitê Nacional de Refugiados (CONARE). O CONARE é responsável por analisar pedidos e declarar o reconhecimento da condição de refugiado, assim como orientar e coordenar as ações necessárias para a proteção, apoio jurídico e assistência aos refugiados.

A lei brasileira é mais abrangente que a convenção de 1951. O Estatuto do Refugiado prevê a concessão de refúgio em casos de grave violação de direitos humanos. De acordo com o Itamaraty, que integra a vice-presidência do CONARE, uma grande parcela daqueles que buscam refúgio no Brasil vem de países envolvidos que sofrem com conflitos e turbulências internas.

Os refugiados que buscam o Brasil têm direitos reconhecidos pela legislação de: educação, saúde e mobilidade no território nacional. A ideia é que essas pessoas possam reconstruir a vida no país. Sendo assim, as normas da CONARE foram criadas para facilitar a concessão de vistos e, atualmente, mais de 2,2 mil sírios já tiveram refúgio concedido no país.

O que é a Convenção de 1951?

Uma assembléia geral foi convocada em Genebra, em 1950, para redigir uma Convenção regulatória do status legal dos refugiados. Ela estabelece padrões básicos para o tratamento de refugiados e deve ser aplicada sem discriminação por raça, religião, sexo ou país de origem. A convenção declara que nenhum refugiado pode ser expulso do país onde buscou abrigo ou ser “devolvido” ao país de origem. Com o tempo, a Convenção de 1951 foi ganhando novos protocolos para responder às emergências e crises contemporâneas.

Paula Paixão

Paula Paixão

Repórter

Paula é estagiária do Diario de Pernambuco desde janeiro 2017.

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