Com paralisia cerebral, poeta recifense desconhece limite

Aos 23 anos,  Wagner tornou-se escritor, “desconhecendo”, por opção, problemas com os quais lida desde o nascimento, com obra financiada pela mãe

 

Os versos “faça dos empecilhos que você enfrenta os maiores desafios” fazem mais sentido quando o poeta Wagner Martins, acometido por paralisia cerebral, que limita gravemente fala e coordenação motora, imprime toda a força contra o chão para arrastar a cadeira de rodas pela casa, em Cajueiro Seco, Jaboatão dos Guararapes, sempre que precisa conduzir novos pensamentos ao teclado do computador. Wagner conta apenas com dois dedos e muita paciência para torná-los poesia, o que não o impediu de lançar o livro Versos da Bela Vida, nem de alimentar quase diariamente o site Eco dos Versos.

“Um professor apresentou os versos na aula, me encantei e até hoje corro atrás dos livros”, força as palavras a sair, para explicar como conheceu a poesia, já no ensino médio. Sem livrarias por perto, enfrenta a falta de acessibilidade e desloca-se até a pequena biblioteca da Estação Recife do metrô, onde aluga gratuitamente os títulos. Machado de Assis, Vinícius de Moraes e, principalmente, Cora Coralina são as maiores influências. “A insanidade do poeta em Vinícius e a simplicidade de Cora”, completa a mãe, Maria Aciatuã, quando ele não consegue se fazer compreendido.

Brenda Alcântara/DP
Brenda Alcântara/DP

À tradutora, aliás, coube financiar o livro de Wagner. “Ele pesquisou sobre a editora, resolveu tudo na internet. Primeiro, encomendei 50 exemplares. Quando acabou, mandei fazer mais 200”, conta. Nas páginas, a temática é só uma: “A vida. Gosto de coisa leve, tristeza não é comigo”, gargalha o poeta.

Wagner apresenta sua produção em saraus que organiza na comunidade, além de ser sempre convidado por instituições de ensino para dar palestras, acompanhado da mãe.

“Incentivo os jovens através da minha conduta. Digo que você pode desistir do mundo, mas nunca de você mesmo”. O conteúdo costuma incluir a importância da leitura. “A pessoa que não lê é totalmente rude, não sabe se expressar através das palavras. Virei poeta para me expressar”, defende.

Ao voltar dos eventos, publica as próprias matérias no Facebook. O hábito o levou a inscrever-se no vestibular deste ano para pleitear vaga no curso de jornalismo. “Quero escrever crônicas, fazer matérias, como já faço sem saber”, brinca. O poeta assegura que está pronto para enfrentar as dificuldades. “Já fiz Enem. Foi horrível, porque a moça ficava ao meu lado escrevendo minha redação, que eu ditava. Só que se ela cometesse um erro de grafia tiravam pontos. Parecia conversa de surdo e mudo”, ri. Apesar disso, não gasta as palavras para se queixar. “Os limites me fazem ser o que eu sou. Não posso reclamar deles, todo mundo tem os seus. É o que nos torna humanos”.

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Marília Parente

Marília Parente

Repórter

Marília é jornalista formada pela UFPE, com publicações no Diario entre 2014 e 2016. É admiradora das letras e das histórias pessoais de superação dos pernambucanos.

Brenda Alcântara

Brenda Alcântara

Fotógrafa

Brenda é estagiária do Diario. Integra a equipe de fotografia do jornal. Aprende todos os dias com os personagens que retrata.

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